Há uma diferença enorme entre saber muitas coisas sobre Deus e conhecer Deus de verdade. É possível acumular informações bíblicas, conhecer histórias, repetir conceitos teológicos e ainda assim permanecer distante daquilo que sustenta a vida cristã: um relacionamento vivo, profundo e crescente com Cristo.
O conhecimento sobre Deus pode nos transformar em especialistas, mas o conhecimento de Deus nos transforma. Por isso, a vida cristã não pode ser reduzida a uma fé alimentada apenas por encontros ocasionais, frases prontas ou experiências passageiras. Existe muito mais em Cristo do que já conhecemos, e esse “mais” não está disponível apenas para alguns poucos cristãos especiais. Ele está diante de todos os que desejam buscá-lo com fome, reverência e perseverança.
O apóstolo Paulo escreveu aos colossenses dizendo:
‘Faço isto para que o coração deles seja consolado e para que eles, vinculados em amor, tenham toda a riqueza da plena convicção do entendimento, para conhecimento do mistério de Deus, que é Cristo, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. ‘ Colossenses 2:2-3
Essa afirmação revela haver tesouros em Cristo. Há profundezas de sabedoria, entendimento, revelação e comunhão que não são percebidas por quem se contenta com um contato distante com ele.
HÁ MAIS DE CRISTO PARA CONHECER
A conversão é o início da vida com Deus, não o ponto final do conhecimento de Cristo. Muitos cristãos tiveram um encontro real com Jesus, foram alcançados pela graça, receberam perdão e nova vida, mas pararam como se já tivessem conhecido tudo o que havia para conhecer. Porém, a própria Bíblia nos mostra que o conhecimento de Deus é progressivo.
Oseias declarou: “Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor” Oseias 6.3.
Essa frase carrega uma convocação: não basta ter conhecido, é preciso prosseguir e permanecer em buscar.
Paulo também expressou esse desejo quando escreveu:
‘Na verdade, considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele perdi todas as coisas e as considero como lixo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, mas aquela que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé. O que eu quero é conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte, para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. ‘ Filipenses 3:8-11
Essa declaração não veio de alguém que não conhecia Jesus. Pelo contrário, veio de um homem que teve uma experiência extraordinária com Cristo, recebeu revelações, pregou o evangelho, plantou igrejas e escreveu cartas fundamentais para a Igreja. Ainda assim, ele sabia que havia mais.
Isso deve nos confrontar. Se Paulo, com toda a sua história com Deus, ainda desejava conhecer Cristo mais profundamente, como poderíamos nos acomodar com tão pouco?
OS TESOUROS NÃO APARECEM NA SUPERFÍCIE
Quando a Bíblia fala de tesouros escondidos em Cristo, ela não está dizendo que Deus deseja manter essas riquezas inacessíveis. O que está escondido não está perdido. Está reservado para quem busca com diligência.
Jeremias registra uma promessa do Senhor:
‘Chame por mim e eu responderei; eu lhe anunciarei coisas grandes e ocultas, que você não conhece. ‘Jeremias 33:3
A oração, portanto, não se limita a apresentar pedidos e receber respostas. Ela também nos introduz em um lugar de revelação, onde Deus anuncia coisas que não conheceríamos por nós mesmos.
Essa busca exige mais do que curiosidade, mas fome espiritual e disposição para permanecer diante de Deus, meditar na Palavra e permitir que o Espírito Santo ilumine os olhos do coração. Um contato superficial com Cristo não revela os tesouros de Cristo. Assim como ninguém encontra ouro apenas olhando rapidamente para a terra, ninguém conhece as profundezas de Deus vivendo uma fé apressada e rasa.
O MANÁ ESCONDIDO E A PALAVRA DE DEUS
Em Apocalipse 2.17, Jesus faz uma promessa ao vencedor: “darei do maná escondido”.
‘ Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: ‘Ao vencedor, darei do maná escondido. Também lhe darei uma pedrinha branca, e, sobre essa pedrinha, um novo nome escrito, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.’” ‘
Essa imagem aponta para uma simbologia tratada no Antigo Testamento. O maná foi o alimento enviado por Deus para sustentar o povo de Israel no deserto. Mas, na tipologia bíblica, o maná também aponta para a Palavra de Deus.
‘Ele humilhou vocês, ele os deixou passar fome, ele os sustentou com o maná, que vocês não conheciam e que nem os pais de vocês conheciam, para que vocês compreendessem que o ser humano não viverá só de pão, mas de tudo o que procede da boca do Senhor. ‘ Deuteronômio 8:3
Moisés disse ao povo que Deus os sustentou com o maná para ensinar que “não só de pão viverá o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor”. Mais tarde, Jesus retomou essa verdade ao responder à tentação no deserto: ‘Jesus, porém, respondeu: — Está escrito: “O ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” ‘ Mateus 4:4
O maná era alimento vindo do céu. A Palavra também é. E assim como Israel não sobreviveria no deserto sem o sustento diário de Deus, a vida cristã não se mantém saudável sem alimentação constante da Palavra.
O problema é que muitos desejam força espiritual, discernimento, maturidade e intimidade com Cristo, mas negligenciam justamente o alimento que Deus providenciou. Querem conhecer Jesus, mas não permanecem na Palavra que revela Jesus.
CRISTO É REVELADO PELA PALAVRA
Jesus não apenas ensina a Palavra. Ele é o Verbo que se fez carne. João escreveu: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1.1). Depois, afirmou: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1.14). Isso significa não haver separação entre conhecer Cristo e se relacionar com a Palavra.
As Escrituras apontam para ele. O próprio Jesus disse:
‘Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. ‘ João 5:39
Por isso, uma vida devocional fraca não produzirá um relacionamento profundo com Deus. Não porque Deus esteja distante, mas porque muitas vezes nós nos afastamos do lugar onde ele decidiu se revelar. A Palavra restaura a alma, ilumina os olhos, dá sabedoria e alegra o coração, como declara o Salmo 19. Ela é mais desejável do que o ouro e mais doce do que o mel.
PRECISAMOS VOLTAR À PROFUNDIDADE
A ordem bíblica é:
‘Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês. Instruam e aconselhem-se mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão no coração. ‘ Colossenses 3:16
A Palavra não deve apenas visitar nossa mente de vez em quando. Ela deve habitar em nós, ricamente.
Isso fala de permanência, não apenas de ler um versículo rapidamente para cumprir uma obrigação religiosa, mas de permitir que a Palavra molde pensamentos, desejos, decisões, conversas, prioridades e práticas. Quando a Palavra habita ricamente em nós, Cristo é formado em nós.
A negligência com as Escrituras não é apenas uma falha de rotina, mas uma perda espiritual. Deixamos de acessar os tesouros que estão em Cristo porque não nos envolvemos com a Palavra no nível em que deveríamos. E, gradualmente, a fé vai se tornando frágil, repetitiva, emocionalmente dependente de estímulos externos e pouco enraizada na verdade.
Conhecer Cristo exige mais do que admirá-lo à distância. Exige abrir a Palavra com reverência, oração e expectativa, crendo que o Espírito Santo ainda revela coisas grandes e ocultas aos que buscam o Senhor de todo o coração.
Há tesouros em Cristo. Há sabedoria, revelação, entendimento e vida disponíveis nele. Mas esses tesouros não serão encontrados por quem se contenta com a superfície. Eles pertencem aos que desejam conhecer o Senhor e prosseguir em conhecê-lo.