Buscar a Deus não é apenas cumprir práticas e supervalorizar, como se fosse um prêmio, quantas horas oramos, quantos capítulos lemos, quantos dias jejuamos ou quantas atividades religiosas conseguimos manter. Todas essas coisas têm valor, mas nenhuma delas substitui aquilo que Deus realmente deseja: o coração.
É possível transformar a busca por Deus em performance. Podemos nos acostumar a avaliar nossa vida espiritual pela quantidade de coisas que fazemos para ele, enquanto deixamos de perceber se, de fato, o nosso amor por ele está crescendo. A busca verdadeira não nasce da necessidade de provar algo, nem do desejo de quebrar recordes pessoais de devoção. Ela nasce de um coração que foi capturado pela beleza de Cristo e não consegue tratá-lo como algo secundário.
Deus é realmente o centro da nossa vida ou apenas uma parte importante da nossa rotina?
O PERIGO DE BUSCAR SEM ENTREGAR O CORAÇÃO
Há momentos em que pensamos estar indo muito bem espiritualmente porque estamos fazendo mais do que fazíamos antes. Oramos mais, lemos mais, jejuamos mais, servimos mais, participamos mais. E, ainda assim, o Espírito Santo pode nos confrontar com uma verdade desconcertante: não é a intensidade externa da busca que Deus procura em primeiro lugar, mas a entrega interior.
Deus não está interessado em uma busca que preserve o coração distante. Ele não quer apenas a nossa disciplina, embora a disciplina seja importante. Ele não quer apenas a nossa constância, embora a constância seja necessária. Ele quer que o desejemos de tal maneira que todas as outras coisas percam sua força de ocupar o centro.
O apóstolo Paulo expressou isso quando escreveu:
‘Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Na verdade, considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele perdi todas as coisas e as considero como lixo, para ganhar a Cristo ‘ Filipenses 3:7-8
Paulo não estava apenas renunciando a pecados. Ele estava dizendo que até aquilo que antes tinha valor, honra, identidade e ganho passou a ser pequeno diante da grandeza de conhecer Cristo.
Esse é o ponto no qual a busca deixa de ser apenas religiosidade e se torna paixão. Cristo se torna tão precioso que nada mais consegue competir com ele.
FOMOS CRIADOS PARA BUSCAR A DEUS
Muitos vivem como se a vida se resumisse a sobreviver. Acordam, trabalham, estudam, se alimentam, pagam contas, resolvem problemas, descansam um pouco e recomeçam tudo no dia seguinte. Mesmo entre cristãos, é possível viver preso ao ciclo das demandas terrenas e tratar o relacionamento com Deus como uma obrigação entre tantas outras.
Mas Jesus declarou que a vida de uma pessoa não consiste na abundância dos bens que ela possui.
‘Então lhes recomendou: — Tenham cuidado e não se deixem dominar por qualquer tipo de avareza, porque a vida de uma pessoa não consiste na abundância dos bens que ela tem. ‘ Lucas 12:15
Ora, se a vida não consiste no que temos, conquistamos ou acumulamos, então precisamos redescobrir por que fomos criados.
A Bíblia nos mostra que Deus estabeleceu os tempos e os limites da habitação humana.
‘De um só homem fez todas as nações para habitarem sobre a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem Deus se, porventura, tateando, o possam achar, ainda que não esteja longe de cada um de nós; ‘ Atos 17:26-27
Esse é o propósito central da existência. Não fomos criados apenas para produzir, construir, consumir, conquistar, nos divertir ou deixar uma marca terrena. Fomos criados para Deus.
Quando perdemos esse senso de propósito, tudo se desorganiza. O que é secundário se torna urgente, o que é eterno é adiado, e aquilo que deveria ocupar o primeiro lugar passa a receber apenas as sobras da nossa atenção.
A BUSCA QUE DEUS ACEITA
Deus não nos chamou para uma busca morna, ocasional e sem intensidade. O profeta Jeremias registrou a promessa do Senhor: “Vocês me buscarão e me acharão quando me buscarem de todo o coração” (Jeremias 29.13). O ponto não é apenas buscar, mas como buscamos.
A expressão “de todo o coração” revela intensidade, inteireza e entrega. É a mesma lógica do maior mandamento: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de toda a sua força” (Marcos 12.30). Deus não pede uma parte de nós. Ele nos chama por inteiro.
Isso significa que a busca verdadeira envolve afeto, pensamento, vontade, energia, disciplina e desejo. Não se trata de encaixar Deus em um espaço livre da agenda, mas de organizar a vida a partir dele, reconhecer que, se Cristo é verdadeiro, ele não pode ter importância parcial.
O problema é que muitos de nós aprendemos a viver a fé como algo de “moderada importância”. Deus é importante, mas não mais do que os nossos planos. A oração é importante, mas não mais do que a pressa. A Palavra é importante, mas não mais do que as distrações. A comunhão é importante, mas não mais do que os compromissos que parecem inadiáveis.
E, aos poucos, vamos dizendo com a rotina aquilo que talvez nunca teríamos coragem de dizer com os lábios: que Deus pode esperar.
DISTRAÇÕES TAMBÉM ROUBAM O CORAÇÃO
Nem todo inimigo da busca por Deus aparece com cara de pecado. Muitas vezes, o que nos tira do centro são coisas lícitas, boas e até recebidas como bênçãos. Trabalho, família, casamento, responsabilidades, conquistas, bens, projetos e até o serviço prestado ao Senhor podem se transformar em distrações quando ocupam o lugar que pertence somente a Deus.
Na parábola da grande ceia, os convidados recusaram o chamado por causa de coisas legítimas: um campo comprado, bois para experimentar e um casamento recente (Lucas 14.16-24). Nada disso era, em si, pecaminoso. O problema é que aquilo que era legítimo se tornou desculpa para desprezar o convite.
Isso acontece conosco mais do que imaginamos. Oramos por bênçãos e, quando Deus as concede, permitimos que elas tomem o lugar da comunhão com ele. Pedimos portas abertas e, quando elas se abrem, já não temos tempo para o secreto. Buscamos restauração familiar e, quando a família floresce, deixamos de buscar o Senhor com a mesma intensidade. Desejamos oportunidades, mas depois nos tornamos ocupados demais para permanecer aos pés de Jesus.
O perigo das distrações é que elas raramente parecem perigosas no começo. Elas não anunciam que vão esfriar o coração. Apenas vão ocupando espaço, roubando foco, diminuindo a fome e tornando Deus menos urgente para nós.
OLHOS SEM DISTRAÇÃO
Buscar a Deus até que nada mais importe não significa abandonar responsabilidades, desprezar a família ou fugir da vida comum. Significa colocar cada coisa no seu devido lugar. Viver com o coração governado por uma prioridade suprema: Cristo em primeiro lugar.
Jesus ensinou: “Busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas” (Mateus 6.33). O problema é que, muitas vezes, invertemos essa ordem. Buscamos primeiro as demais coisas e esperamos que Deus acompanhe nossos interesses. Mas o chamado de Jesus é outro: primeiro o Reino, primeiro o Senhor, primeiro aquilo que é eterno.
Essa é a devoção sem distração. Um coração com “olhos de pomba”, focado em uma só direção, sem dividir sua atenção com tudo aquilo que tenta competir com Cristo. Não é uma vida sem responsabilidades, mas uma vida sem rivais no trono do coração.
A busca que Deus deseja não é fria, mecânica ou baseada apenas em desempenho. É uma busca movida por amor. É desejar o Senhor acima de tudo, até que as outras coisas percam o poder de nos governar. É chegar ao ponto em que Cristo não seja apenas importante, mas incomparável.
Que o nosso coração seja conduzido de volta a esse lugar. Um lugar onde a oração não seja sobra, a Palavra não seja obrigação, a presença de Deus não seja detalhe e o Senhor não seja tratado como parte da vida, mas como a própria razão dela.
Texto baseado no livro Até que nada mais importe, de Luciano Subirá. Adquira em loja.orvalho.com