A vida cristã é marcada por um fator que merece nossa atenção. Ao mesmo tempo em que a Bíblia afirma, sem qualquer margem para dúvida, que Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11), ela também apresenta homens e mulheres que desfrutaram de uma intimidade extraordinária com ele. Moisés falava com o Senhor “face a face, como quem fala com o seu amigo” (Êx 33.11). Davi foi chamado de homem segundo o coração de Deus (At 13.22). João é conhecido como o discípulo amado, não porque fosse mais amado do que os demais, mas porque experimentava uma proximidade singular com Cristo. Diante desses exemplos, surge uma pergunta inevitável: se Deus ama todos igualmente, por que nem todos vivem a mesma profundidade de relacionamento com Ele?
Responder a essa questão é importante porque, dependendo da resposta que damos, acabamos caindo em extremos igualmente perigosos. Há quem imagine que Deus distribui sua presença de maneira arbitrária, aproximando-se mais de alguns do que de outros por razões que jamais compreenderemos. Outros, em reação a essa ideia, afirmam que toda experiência cristã deve ser exatamente igual, como se a intensidade da comunhão não tivesse nenhuma relação com a forma como respondemos ao Senhor. Nenhuma dessas conclusões encontra respaldo nas Escrituras. A Bíblia apresenta um caminho diferente. Deus é absolutamente imparcial em seu caráter, em seu amor e em sua justiça, mas escolheu estabelecer um relacionamento no qual nossa resposta ao seu chamado possui consequências reais.
É justamente sobre esse princípio que Luciano Subirá reflete no capítulo “A reciprocidade de Deus”, do livro Até que Nada Mais Importe. O autor demonstra que a reciprocidade não deve ser entendida como uma negociação entre Deus e o homem, mas como uma característica inerente a todo relacionamento verdadeiro. A graça sempre parte de Deus. A iniciativa da salvação pertence inteiramente a ele. No entanto, a maneira como respondemos a essa graça influencia profundamente a qualidade da comunhão que desfrutamos com o Senhor. Em outras palavras, Deus não muda em seu caráter, mas nossa experiência com ele muda à medida que correspondemos ao seu convite.
Deus nunca muda, mas o relacionamento pode mudar
Uma das doutrinas mais consoladoras das Escrituras é a imutabilidade de Deus. O profeta Malaquias registra as palavras do próprio Senhor: “Porque eu, o Senhor, não mudo” (Ml 3.6). Tiago reforça essa mesma verdade ao afirmar que em Deus “não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). Isso significa que Deus não é governado por emoções instáveis nem reage impulsivamente às circunstâncias. Seu amor continua perfeito, sua santidade permanece absoluta e sua fidelidade não sofre nenhuma alteração.
Essa verdade, entretanto, levanta uma questão importante. Se Deus não muda, como explicar os inúmeros textos bíblicos que descrevem diferentes experiências da sua presença? Por que alguns homens caminharam tão perto de Deus enquanto outros viveram uma espiritualidade superficial? A resposta não está em uma mudança no Senhor, mas na posição ocupada pelo homem diante dele.
Essa dinâmica pode ser observada desde o início da história bíblica. No jardim do Éden, Deus criou o ser humano para viver em perfeita comunhão consigo. O pecado rompeu essa comunhão, mas não alterou o propósito divino. Ao longo de toda a história da redenção, vemos Deus chamando homens e mulheres de volta para perto de si. O relacionamento continua sendo oferecido; a diferença está na resposta daqueles que recebem esse convite.
Por essa razão, quando falamos sobre reciprocidade, não estamos sugerindo que Deus ame mais aqueles que o buscam intensamente. O amor do Pai foi plenamente demonstrado na cruz de Cristo, quando “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Antes que qualquer ser humano levantasse os olhos para o céu, Deus já havia tomado a iniciativa da reconciliação. A reciprocidade não produz a graça; ela é uma resposta à graça já recebida.
Essa distinção protege o cristão de dois erros frequentes. O primeiro é imaginar que disciplinas espirituais, como oração, jejum ou leitura bíblica, possam conquistar o favor divino. O segundo é acreditar que essas mesmas práticas sejam irrelevantes porque Deus continuará agindo exatamente da mesma maneira, independentemente da nossa postura. As Escrituras rejeitam ambos os extremos. A profundidade da comunhão depende, sim, da disposição com que nos aproximamos do Senhor.
MAIS DO QUE UMA PROMESSA
Poucos textos são tão conhecidos quando o assunto é buscar a Deus quanto Jeremias 29.13: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração”. Frequentemente, esse versículo é citado como uma promessa isolada, quase como uma frase motivacional destinada a encorajar momentos de devoção. Entretanto, quando observamos o contexto em que foi escrito, percebemos que Jeremias está revelando um princípio muito mais profundo sobre a forma como Deus decidiu relacionar-se com seu povo.
Essas palavras foram dirigidas aos judeus exilados na Babilônia. Jerusalém havia sido destruída, o templo estava em ruínas e o povo experimentava as consequências de décadas de idolatria e rebelião. Muitos esperavam uma restauração imediata, mas Deus, por meio do profeta, anuncia que aquele exílio duraria setenta anos (Jr 29.10). Somente depois desse período o Senhor os faria voltar à terra prometida. No entanto, a restauração geográfica seria apenas parte da obra divina. Deus desejava restaurar algo ainda mais importante: o relacionamento do seu povo com ele.
É nesse contexto que aparece a promessa de Jeremias 29.13. Deus não está dizendo apenas que pode ser encontrado. Ele está revelando a maneira pela qual deseja ser buscado. O texto não fala de uma procura superficial, motivada apenas pelo desejo de resolver problemas ou aliviar sofrimentos. O Senhor fala sobre uma busca realizada “de todo o coração”. Na linguagem do Antigo Testamento, o coração representa o centro da vontade, dos afetos, das decisões e da adoração. Buscar a Deus de todo o coração significa dirigir a vida inteira para ele, e não apenas reservar alguns momentos ocasionais de espiritualidade.
Ao comentar essa passagem, Luciano Subirá observa que Deus não estabeleceu essa condição porque precise da dedicação humana para sentir-se valorizado. O Senhor é plenamente suficiente em si mesmo. A exigência de uma busca integral existe porque apenas um coração inteiramente voltado para Deus consegue desfrutar da comunhão que ele oferece. O problema nunca esteve na disposição divina para se revelar, mas na disposição humana para abandonar tudo aquilo que ocupa o lugar que pertence exclusivamente ao Senhor.
É justamente aqui que começamos a compreender o verdadeiro significado da reciprocidade. Deus permanece o mesmo, sua graça continua sendo gratuita e seu amor jamais diminui. Entretanto, aqueles que respondem ao seu chamado experimentam uma profundidade de relacionamento que simplesmente não pode ser conhecida por quem escolhe permanecer distante.
"Chegai-vos a Deus": um convite à restauração da comunhão
Entre os textos mais conhecidos sobre intimidade com Deus está a exortação de Tiago:
“Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós” Tiago 4.8.
Tiago não escreve para incrédulos, mas para cristãos que haviam permitido que seus desejos, disputas e ambições produzissem divisões na comunidade. Poucos versículos antes, ele afirma que as contendas existentes entre eles nasciam das paixões que guerreavam dentro do próprio coração (Tg 4.1-3). Em seguida, denuncia que a amizade com o mundo é inimizade contra Deus (Tg 4.4). Somente então aparece o convite para aproximar-se do Senhor.
Essa sequência é importante porque mostra que Tiago não está oferecendo uma fórmula para fazer Deus agir. Ele está chamando o povo de Deus ao arrependimento. A aproximação do Senhor é consequência da restauração do relacionamento, e não o resultado de uma barganha espiritual. Deus nunca havia deixado de ser fiel; eram eles que haviam se afastado.
Essa compreensão impede que transformemos a reciprocidade em um mecanismo religioso. O cristianismo não ensina que Deus responde melhor àqueles que acumulam méritos espirituais. A própria salvação desmente essa ideia, pois fomos reconciliados com Deus quando ainda éramos inimigos (Rm 5.10). O que Tiago ensina é que a comunhão floresce quando o pecado deixa de ocupar o espaço que pertence à presença de Deus. O Senhor continua disposto a receber aqueles que voltam para Ele, exatamente como o pai da parábola recebeu o filho pródigo. O pai nunca deixou de amar o filho; mas o abraço só foi experimentado quando o filho decidiu retornar à casa.
Ao comentar esse texto, Luciano Subirá chama a atenção para o fato de que Deus escolheu relacionar-se conosco de maneira pessoal. Nenhum relacionamento verdadeiro permanece saudável quando apenas uma das partes demonstra interesse. Evidentemente, toda comparação possui limites, pois Deus jamais depende do homem. Ainda assim, a linguagem utilizada pelas Escrituras deixa claro que o Senhor se agrada da resposta daqueles que o buscam sinceramente. É por isso que Tiago não diz apenas que Deus está perto. Ele convida seus leitores a se aproximarem, mostrando que a comunhão exige uma resposta consciente à graça recebida.
A HISTÓRIA DE ASA
Entre os muitos personagens bíblicos que ilustram esse princípio, poucos são tão didáticos quanto o rei Asa. Seu reinado começou de maneira admirável. Segundo 2 Crônicas 14, Asa promoveu uma reforma espiritual em Judá, removeu os altares pagãos, destruiu os ídolos e conclamou o povo a buscar o Senhor. Como consequência dessa postura, a nação desfrutou de um longo período de paz. Quando foi ameaçado por um exército etíope numericamente muito superior, Asa não confiou em sua capacidade militar. Sua oração revela um coração completamente dependente de Deus:
“Senhor, além de ti não há quem possa socorrer numa batalha entre o poderoso e o fraco.” 2 Crônicas 14.11.
A resposta divina foi imediata, e Judá experimentou uma vitória impossível de ser explicada apenas pela estratégia humana.
Depois desse episódio, o profeta Azarias foi enviado para transmitir uma palavra que resume o princípio da reciprocidade:
“O Senhor está com vocês enquanto vocês estão com ele; se o buscarem, ele deixará que o encontrem; porém, se o abandonarem, ele os abandonará.” 2 Crônicas 15.2.
Essas palavras não significavam que Deus fosse abandonar sua aliança ao primeiro sinal de fraqueza. O profeta estava descrevendo a dinâmica do relacionamento da aliança. Permanecer perto do Senhor produziria comunhão, direção e proteção; afastar-se dele inevitavelmente traria consequências.
Infelizmente, a história de Asa demonstra como é possível começar bem e terminar confiando em outros recursos. Anos mais tarde, diante de uma nova ameaça militar, o rei deixou de buscar o Senhor e preferiu firmar uma aliança política com a Síria (2Cr 16.1-9). O mesmo homem que antes havia reconhecido sua total dependência de Deus agora depositava sua confiança em estratégias humanas. A repreensão do profeta Hanani é uma das declarações mais impressionantes do Antigo Testamento: “Porque, quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele” (2Cr 16.9).
A força do Senhor não é prometida aos mais capazes, mas àqueles cuja confiança permanece firmemente depositada nele. É exatamente essa verdade que Luciano Subirá destaca ao longo do capítulo: a reciprocidade nunca esteve relacionada ao desempenho exterior, mas à disposição interior do coração.
Texto baseado no livro Até que nada mais importe, de Luciano Subirá. Adquira em loja.orvalho.com