Uma percepção que precisa ser recuperada
Há prazeres que não desapareceram, mas que deixamos de perceber. Eles continuam disponíveis, continuam sendo oferecidos por Deus e continuam tendo o mesmo valor, porém nossa sensibilidade para reconhecê-los pode diminuir. A presença de Deus não se tornou menos preciosa, a Palavra não perdeu sua capacidade de alimentar, a oração não deixou de ser lugar de comunhão e a adoração não se tornou menos importante. O que pode mudar é o nosso paladar espiritual.
Davi descreveu sua experiência com Deus usando justamente a linguagem do prazer:
“Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, à tua direita, há delícias perpetuamente.” Salmos 16:11
É significativo que a Bíblia não apresente a vida com Deus apenas em termos de dever, obediência e renúncia. Todas essas coisas fazem parte do discipulado, mas há também deleite. Há alegria em sua presença. Há satisfação em conhecê-lo. Há prazeres que não podem ser encontrados em nenhum outro lugar.
O problema é que podemos estar cercados de tantos outros prazeres que já não conseguimos perceber esses deleites espirituais com a mesma intensidade. E talvez uma das grandes necessidades da vida cristã seja justamente recuperar essa percepção.
QUANDO O PALADAR SE ACOSTUMA COM OUTROS SABORES
Nossa capacidade de apreciar alguma coisa é influenciada por aquilo a que nos acostumamos. Um paladar habituado a sabores muito intensos pode ter dificuldade para reconhecer sabores mais sutis. Algo semelhante pode acontecer espiritualmente: quando nosso coração se acostuma a receber satisfação constantemente de outras fontes, aquilo que é eterno pode parecer menos atraente, não porque tenha perdido seu valor, mas porque nossa percepção foi alterada.
Paulo experimentou uma transformação profunda nessa escala de valores. Ele possuía razões para se orgulhar de sua história, de sua formação e de sua posição religiosa. No entanto, após conhecer Cristo, passou a avaliar tudo isso de outra maneira:
“Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Na verdade, considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.”
Filipenses 3:7-8
Observe que Paulo não está simplesmente aprendendo a desprezar coisas. Ele encontrou algo superior. Sua renúncia nasce de uma nova percepção de valor. Quando Cristo passou a ocupar o centro, aquilo que antes parecia extraordinariamente importante foi redimensionado.
Esse princípio nos ajuda a compreender a diferença entre os deleites naturais e os espirituais. O problema não está necessariamente em desfrutar das coisas boas que Deus nos concede. A questão começa quando prazeres legítimos assumem uma importância que pertence somente a Deus e disputam nossa atenção, nossa afeição e nosso desejo por ele.
Por isso, o chamado bíblico não consiste simplesmente em eliminar todos os prazeres da vida, mas em reordená-los.
PRAZERES E VALORES
Jesus fez uma declaração que revela como nossa percepção de valor pode se distanciar da percepção de Deus:
“Aquilo que é elevado entre homens é abominação diante de Deus.”
Lucas 16:15
O contexto envolve homens que amavam o dinheiro e, justamente por isso, eram incapazes de reconhecer corretamente aquilo que possuía verdadeiro valor. O problema não estava apenas no que possuíam, mas na maneira como seu coração havia aprendido a avaliar as coisas.
Isso continua sendo um perigo para nós. Podemos passar tanto tempo buscando realização, conforto, reconhecimento, entretenimento, aquisição e tantas outras formas legítimas ou ilegítimas de prazer que nossa alma se torna progressivamente menos impressionada por Deus.
Então lemos a Bíblia, mas nosso coração não se move. Oramos, porém rapidamente queremos fazer outra coisa. Entramos em um momento de adoração, mas nossa atenção procura estímulos mais imediatos. Não significa necessariamente que não amamos a Deus. Pode significar que nosso paladar espiritual precisa ser novamente educado.
É justamente nesse ponto que começamos a compreender uma das funções do jejum.
Depois de jejuar quarenta dias no deserto, Jesus sentiu fome. Satanás se aproximou e sugeriu que Ele transformasse pedras em pães. A necessidade era real e o alimento, em si mesmo, não era pecaminoso. Ainda assim, Cristo respondeu:
“O ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.”
Mateus 4:4
Jesus estava citando Deuteronômio 8, passagem em que Moisés explica o propósito de Deus ao permitir que Israel experimentasse fome no deserto:
“Ele humilhou vocês, ele os deixou passar fome, ele os sustentou com o maná […] para que vocês compreendessem que o ser humano não viverá só de pão, mas de tudo o que procede da boca do Senhor.”
Deuteronômio 8:3
A fome possuía uma função pedagógica: “para que vocês compreendessem”.
Deus estava ensinando algo que dificilmente seria aprendido apenas por meio de uma explicação. Israel precisava descobrir que sua existência não dependia somente do alimento visível diante dos olhos. Havia uma dependência mais importante: a Palavra daquele que sustentava sua vida.
É nesse sentido que o jejum pode funcionar como uma pedagogia divina. Ao abrir mão temporariamente de algo legítimo, somos confrontados com nossos apetites e percebemos quanto espaço eles ocupam em nós. A abstinência não cria o valor de Deus; ela pode nos ajudar a perceber um valor que já estava ali.
O jejum, portanto, não pretende tornar Deus mais presente. Ele trabalha em nossa percepção da presença que já é preciosa.
A AFLIÇÃO DA ALMA NÃO É O FIM
A Bíblia associa o jejum à ideia de humilhação e de “afligir a alma”. Isso não significa que o sofrimento possua valor espiritual por si mesmo, como se quanto maior for o desconforto, mais santos nos tornássemos. A privação não é o objetivo.
Ao recusarmos temporariamente determinados prazeres, somos lembrados de que não precisamos obedecer a cada desejo que surge em nós. A alma descobre que pode dizer não ao imediato para voltar sua atenção ao eterno.
Por isso, o jejum não deveria produzir apenas fome. Se a abstinência não nos conduz à oração, à Palavra, à adoração e à busca por Deus, ficamos apenas com a ausência do alimento. O propósito é retirar temporariamente aquilo que ocupa nossa atenção para podermos perceber com maior clareza aquilo que frequentemente é abafado por ela.
Paulo escreve aos colossenses:
“Busquem as coisas lá do alto, onde Cristo vive […] Pensem nas coisas lá do alto, e não nas que são aqui da terra.”
Colossenses 3:1-2
Existe intencionalidade nessa ordem. “Busquem.” “Pensem.” A percepção espiritual não é tratada como algo completamente automático. Há uma participação nossa no direcionamento dos afetos.
Não produzimos a presença de Deus, mas podemos escolher onde colocaremos nossa atenção.
A Bíblia apresenta diferentes circunstâncias relacionadas ao jejum. Há jejum ligado ao arrependimento, à consagração, à intercessão, à proteção, às enfermidades, às batalhas espirituais e à preparação ministerial. Contudo, por trás desses diferentes contextos, existe um movimento: voltar-se para Deus.
Daniel registra:
“Voltei o rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum.”
Daniel 9:3
Joel apresenta o mesmo movimento:
“Ainda assim, agora mesmo, diz o Senhor: Convertam-se a mim de todo o coração; com jejuns, com choro e com pranto.”
Joel 2:12
O jejum pode nascer de uma crise, mas não precisa depender de uma crise. Se jejuamos apenas quando precisamos que Deus resolva alguma coisa, arriscamos transformar uma disciplina de relacionamento em uma ferramenta utilizada exclusivamente para emergências.
BUSCAR A DEUS PORQUE QUEREMOS DEUS
Essa talvez seja uma das dimensões que mais precisamos recuperar. Nem toda busca precisa começar com uma necessidade urgente. Nem toda oração precisa nascer de um problema. Nem todo jejum precisa ter como ponto de partida algo que queremos receber.
Às vezes, o propósito pode simplesmente ser voltar o coração para ele. Ana é uma das personagens que melhor expressam essa realidade. Depois de ficar viúva, ela permaneceu no templo servindo a Deus continuamente:
“Não se afastava do templo, mas adorava noite e dia com jejuns e orações.”
Lucas 2:37
O texto não apresenta seu jejum como resposta a uma emergência específica. Jejum, oração e adoração haviam se tornado parte de sua vida diante de Deus.
E há um detalhe extraordinário: Ana é chamada de profetisa. Sua vida de devoção estava acompanhada de sensibilidade espiritual. Quando Jesus foi levado ao templo ainda bebê, ela reconheceu naquele menino aquilo que muitos seriam incapazes de perceber.
Esse é um retrato poderoso dos deleites espirituais. Quanto mais o coração aprende a encontrar satisfação em Deus, mais sensível se torna àquilo que ele está fazendo.
Não porque o jejum funcione como uma técnica capaz de obrigar Deus a falar, mas porque uma vida menos dominada por outros apetites pode tornar-se mais atenta à sua voz.
ANTIOQUIA: UMA IGREJA SENSÍVEL À VOZ DO ESPÍRITO
Algo semelhante aparece em Atos 13. A igreja de Antioquia não estava reunida apenas para pedir uma solução. Lucas registra:
“Enquanto eles estavam adorando o Senhor e jejuando, o Espírito Santo disse: Separem-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.”
Atos 13:2
Eles estavam adorando e jejuando quando ouviram. Aquele ambiente de busca produziu consequências que ultrapassaram a experiência individual dos presentes. Da sensibilidade daquela comunidade à direção do Espírito nasceu um movimento missionário que alcançaria inúmeras pessoas.
Isso amplia nossa compreensão dos deleites espirituais. A intimidade com Deus não termina em uma experiência particular de satisfação. Quanto mais percebemos sua beleza, mais desejamos sua vontade; e quanto mais desejamos sua vontade, mais disponíveis nos tornamos para participar daquilo que Ele está fazendo.
O deleite em Deus não nos fecha em nós mesmos. Ele nos move em direção aos propósitos de Deus.
RECUPERANDO O GOSTO PELO QUE É ETERNO
Talvez o maior problema dos prazeres inferiores não seja o fato de serem prazerosos, mas sua capacidade de nos convencer de que são tudo o que existe. Quando estamos continuamente satisfeitos com aquilo que é imediato, podemos perder a fome por aquilo que é superior.
É por isso que algumas renúncias são tão importantes para a formação espiritual. Elas não existem porque Deus deseja uma vida cristã cinzenta, marcada pela ausência de prazer. O movimento bíblico aponta justamente na direção oposta: renunciamos a algo menor para recuperar nossa capacidade de perceber algo maior.
A oração, a leitura e meditação nas Escrituras, a adoração e o jejum participam dessa formação dos afetos. Aos poucos, nosso coração aprende novamente a reconhecer aquilo que sempre esteve diante dele. A Palavra volta a ser alimento. A presença de Deus deixa de ser apenas uma doutrina que confessamos e torna-se uma realidade que desejamos. A oração deixa de ser apenas uma obrigação e volta a ser comunhão.
Então começamos a compreender melhor as palavras do salmista:
“Na tua presença há plenitude de alegria, à tua direita, há delícias perpetuamente.”
Salmos 16:11
Os deleites espirituais não precisam ser inventados. Eles precisam ser percebidos.
Talvez, portanto, a pergunta não seja apenas se buscamos a Deus, mas quanto nosso coração ainda consegue se deleitar nele. Se outros sabores ocuparam espaço demais, a resposta bíblica não é fingir que eles não existem, mas permitir que Deus reorganize nossos afetos. E disciplinas como o jejum podem fazer parte desse processo, para voltarmos a perceber a doçura daquele que sempre foi o maior deles.