Muitos vivem tentando preservar a própria vida. Jesus, porém, ensinou que existe algo mais valioso do que simplesmente continuar existindo.
Ao longo da história da Igreja, milhares de homens e mulheres foram colocados diante de uma escolha impossível aos olhos humanos. Bastaria uma única declaração para que continuassem vivos. Não lhes era exigido dinheiro, influência ou prestígio. A condição era negar a Cristo.
Os relatos dos primeiros séculos mostram que muitos cristãos poderiam ter voltado para casa, reencontrado suas famílias e seguido a vida normalmente caso estivessem dispostos a oferecer um pouco de incenso diante da imagem do imperador romano ou declarar publicamente que César era senhor. No entanto, escolheram permanecer fiéis a Jesus, ainda que isso lhes custasse a própria vida.
Essa decisão parece incompreensível para uma cultura que transformou a sobrevivência no maior dos valores. Afinal, por que alguém abriria mão da própria existência? O que poderia ser mais importante do que viver?
Essa pergunta nos obriga a olhar para uma questão mais profunda. Talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido quanto tempo vivemos, mas pelo que vivemos. Afinal, uma vida longa pode ser desperdiçada se for construída em torno de objetivos pequenos, enquanto uma vida breve pode cumprir plenamente seu propósito quando está totalmente entregue à vontade de Deus.
É justamente essa reflexão que Luciano Subirá desenvolve no livro Até que Nada Mais Importe. Ao comentar as palavras de Jesus sobre negar a si mesmo e tomar a cruz, o autor demonstra que o evangelho não foi anunciado para tornar a vida mais confortável, mas para restaurar o propósito para o qual fomos criados. Essa restauração exige uma ruptura profunda com aquilo que a natureza humana mais tenta preservar: o governo do próprio “eu”.
O DISCIPULADO COMEÇA ONDE TERMINA A AUTONOMIA
Desde cedo somos incentivados a seguir nossos sonhos, ouvir nosso coração, construir nossa própria verdade e jamais permitir que alguém limite nossas escolhas. A ideia de submeter a vontade pessoal a qualquer autoridade parece ofensiva para uma cultura que entende liberdade como a possibilidade de fazer tudo aquilo que se deseja.
Entretanto, o evangelho apresenta uma compreensão completamente diferente de liberdade. Quando Jesus chamou homens e mulheres para segui-lo, não lhes ofereceu um caminho de autoexpressão, mas um caminho de rendição. O convite não era para acrescentar Cristo aos próprios projetos, mas para permitir que ele se tornasse o Senhor de toda a existência.
“Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” Marcos 8.34
É importante observar que Jesus não dirige essas palavras apenas aos doze discípulos. O texto informa que ele convocou também a multidão antes de fazer essa declaração. Isso significa que não estamos diante de um chamado reservado a cristãos especialmente consagrados, missionários ou líderes da igreja. Estamos diante da definição que o próprio Cristo faz do discipulado. Todo aquele que deseja segui-lo precisa compreender que existe uma condição inegociável: negar a si mesmo.
Durante muito tempo essa expressão foi interpretada de maneira superficial. Alguns imaginaram que negar a si mesmo significava abrir mão de pequenos prazeres, suportar dificuldades da vida ou resignar-se diante de circunstâncias desagradáveis. Não é raro ouvir alguém dizer que determinado problema é “a sua cruz”. Contudo, basta observar o contexto histórico para perceber que Jesus jamais poderia estar falando disso.
Na Palestina do primeiro século, a cruz não era um símbolo religioso nem um ornamento. Era um instrumento de execução reservado aos condenados pelo Império Romano. Quando um prisioneiro era obrigado a carregar sua cruz pelas ruas da cidade, ele estava fazendo uma declaração pública de que já havia recebido sua sentença de morte. A caminhada até o lugar da crucificação não representava sofrimento em sentido genérico; representava o fim do direito de conduzir a própria vida.
Essa informação muda completamente nossa leitura do texto. Ao dizer “tome a sua cruz”, Jesus não está ensinando seus discípulos a suportarem dificuldades inevitáveis. Está convidando-os a reconhecer que, para segui-lo, o velho homem precisa morrer. O discípulo deixa de viver segundo seus próprios interesses para submeter toda a sua existência ao senhorio de Cristo.
Essa compreensão harmoniza-se com toda a mensagem do Novo Testamento. Paulo escreve aos gálatas: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). A cruz, portanto, não é apenas um acontecimento histórico ocorrido no Calvário; ela também descreve a transformação interior daquele que pertence a Jesus. O centro da vida deixa de ser o “eu” e é Cristo.
É por isso que Luciano Subirá observa que o evangelho não pode ser reduzido a uma mensagem de perdão dos pecados. Evidentemente, a cruz remove nossa culpa diante de Deus, mas ela também inaugura uma nova forma de viver. Cristo não morreu apenas para garantir nosso destino eterno; morreu para restaurar, já no presente, o propósito original da criação, levando homens e mulheres a viverem em obediência ao Pai.
Essa ligação entre fé e obediência percorre toda a carta aos Romanos. Logo na abertura, Paulo afirma que recebeu graça e apostolado para conduzir todas as nações “à obediência por fé” (Rm 1.5). Curiosamente, ao encerrar a mesma carta, ele retoma exatamente a mesma expressão (Rm 16.26), mostrando que a fé bíblica nunca foi entendida como mera concordância intelectual. Crer em Cristo significa confiar nele de tal maneira que sua Palavra passa a governar nossas escolhas.
Essa perspectiva também esclarece por que Jesus insistiu tanto na obediência como marca do verdadeiro discípulo. Antes de ascender aos céus, ele ordenou que seus seguidores fizessem discípulos de todas as nações, ensinando-os a guardar tudo o que lhes havia ordenado (Mt 28.19-20). O objetivo da evangelização nunca foi apenas produzir pessoas convencidas acerca da existência de Deus, mas homens e mulheres cuja vida inteira fosse moldada pela vontade do Senhor.
Negar a si mesmo, portanto, não significa desprezar a própria personalidade, mas reconhecer que existe uma vontade superior à nossa. Desde o Éden, o grande conflito da humanidade sempre foi uma disputa entre a vontade do Criador e a vontade da criatura. O pecado entrou no mundo quando Adão e Eva decidiram que seu próprio julgamento era mais confiável do que a palavra de Deus. O discipulado começa justamente quando esse movimento é invertido. Pela graça, o cristão aprende a dizer, como Jesus no Getsêmani: “Não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.36).
A CRUZ ELIMINA O FALSO SENHOR DA VIDA
Existe um equívoco recorrente quando se fala sobre autonegação. Algumas pessoas imaginam que negar a si mesmas significa desprezar sua personalidade, sufocar emoções ou viver em permanente culpa. Nada disso corresponde ao ensino das Escrituras.
Quando Paulo afirma: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), ele não está dizendo que deixou de existir. Continua sendo Paulo, com sua história, seus dons e sua personalidade. O que morreu foi o antigo senhor da sua vida. A autoridade suprema deixou de ser o próprio Paulo e passou a ser Cristo.
Essa mesma lógica aparece em Romanos 6, quando o apóstolo explica que nosso velho homem foi crucificado com Cristo para que não sejamos mais escravos do pecado (Rm 6.6). Observe que a cruz sempre produz libertação. Deus não pede a morte do ego porque deseja empobrecer nossa existência, mas porque sabe que somente quando o falso senhor morre, o verdadeiro Rei pode governar.
É por isso que Jesus associa perder a vida a encontrá-la. Aos olhos humanos, abrir mão da própria vontade parece uma derrota. Contudo, aos olhos do Reino, essa é a única maneira de experimentar a vida abundante prometida por Cristo (Jo 10.10). O evangelho não destrói a identidade do discípulo; ele restaura essa identidade ao colocá-la novamente sob o senhorio daquele que a criou.
Pelo que vale viver?
Se a vida existe apenas para proteger nossos interesses, qualquer renúncia parecerá um prejuízo insuportável. Mas se fomos criados para conhecer a Cristo, glorificá-lo e viver para o seu Reino, então tudo aquilo que nos aproxima desse propósito se torna ganho, ainda que aos olhos do mundo pareça perda.
Foi exatamente essa convicção que levou Paulo a escrever: “Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). Não porque desprezasse a vida, mas porque havia encontrado algo infinitamente mais valioso do que ela. Quem encontra esse tesouro compreende que seguir Jesus nunca significou perder a própria existência. Significou, finalmente, descobrir para que ela foi criada.
Texto baseado no livro Até que nada mais importe, de Luciano Subirá. Adquira em loja.orvalho.com