Deus não fez ninguém em série. Cada pessoa carrega dons e talentos únicos, colocados ali pelo próprio Criador com um propósito claro: servir. Esses dons não são apenas habilidades naturais ou traços de personalidade. São manifestações da graça de Deus em nós, expressões vivas do seu amor por meio daquilo que fazemos com o coração.
O apóstolo Pedro resume essa verdade em poucas palavras:
Sirvam uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como encarregados de administrar bem a multiforme graça de Deus. 1Pedro 4.10
O texto não diz que apenas alguns receberam dons, mas “cada um”. Também não trata o dom como propriedade particular, e sim como algo que nos foi confiado para administrar. A palavra “multiforme” lembra que a graça de Deus se manifesta de muitas maneiras: na palavra que ensina, na mão que serve, na mesa que acolhe, na oração que sustenta.
Desenvolver os dons com sabedoria começa por reconhecer isso. Aquilo que você tem e sabe fazer pode ser ferramenta nas mãos de Deus para transformar vidas, inclusive a sua.
Todo dom é recebido
Há duas maneiras de olhar para os próprios dons. Uns os tratam como troféus pessoais, conquistas que nos tornam superiores. A outra os entende como instrumentos do Reino, entregues por Deus para um propósito que vai além de nós. A diferença entre as duas está no coração.
A igreja de Corinto era cheia de dons, mas também de orgulho e comparações. Paulo confrontou essa atitude com uma pergunta:
Pois quem é que faz com que você sobressaia? E o que é que você tem que não tenha recebido? E, se o recebeu, por que se gloria, como se não o tivesse recebido? 1Coríntios 4.7
Tudo o que temos é presente. A facilidade para ensinar, a sensibilidade para acolher, a habilidade com as mãos, a criatividade, a voz, a organização: nada disso nasceu de nós. Por isso, o desenvolvimento dos dons começa com gratidão e humildade. Quem sabe que recebeu não se envaidece com o que tem, mas se sente responsável por cuidar bem daquilo que lhe foi confiado.
Essa consciência também liberta da comparação. O dom do outro não diminui o seu. Deus distribuiu com sabedoria, e cada parte tem o seu lugar no corpo de Cristo.
O perigo de enterrar o talento
Jesus contou uma parábola sobre um homem que, antes de viajar, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens:
A um deu cinco talentos, a outro deu dois e a outro deu um, de acordo com a capacidade de cada um deles; e então partiu. Mateus 25.15
Os dois primeiros servos trabalharam com o que receberam e multiplicaram o que lhes foi confiado. A ambos o senhor disse as mesmas palavras, sem considerar a quantia de cada um: “Muito bem, servo bom e fiel; você foi fiel no pouco, sobre o muito o colocarei; venha participar da alegria do seu senhor” (Mateus 25.21).
O terceiro servo agiu de outro modo. Ele não desperdiçou o talento, nem o roubou. Simplesmente o escondeu. Ao prestar contas, explicou: “fiquei com medo e escondi o seu talento na terra” (Mateus 25.25). A resposta do senhor foi dura, porque o problema não era ter recebido pouco, mas não ter feito nada com o que recebeu.
A parábola revela algo importante: Deus não nos pede o que não nos deu, mas espera fidelidade com aquilo que nos confiou. Medo, insegurança, comodismo ou sensação de que “o meu dom é pequeno demais” são formas sutis de enterrar o talento. Kelly Subirá faz o mesmo apelo de maneira simples: não enterre o que Deus lhe deu; cultive, desenvolva e use com sabedoria.
Servir nas coisas simples
Às vezes, imaginamos que usar os dons significa algo grande, visível e público: um púlpito, um palco, um ministério reconhecido. Mas, muitas vezes, os maiores impactos acontecem nos gestos simples.
Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor e não para as pessoas. Colossenses 3.23
O livro de Atos registra a história de uma discípula que ilustra bem essa verdade:
Em Jope havia uma discípula chamada Tabita, nome este que, traduzido, é Dorcas. Ela era notável pelas boas obras e esmolas que fazia. Atos 9.36
Quando Tabita morreu, Pedro foi chamado à sua casa. Ao chegar, encontrou as viúvas chorando e mostrando a ele as túnicas e os vestidos que ela tinha feito (Atos 9.39). O dom de Tabita era costurar, e ela o usou para vestir quem precisava. Não havia nada de espetacular nisso aos olhos do mundo, mas a sua vida havia tocado tantas pessoas que a cidade inteira sentiu a sua falta.
Quando servimos com humildade e propósito, o maior ganho não fica apenas com quem é alcançado, mas também com quem serve. Amadurecemos, nos fortalecemos e descobrimos quem somos. Deus nos molda à medida que nos colocamos à disposição dele.
O legado que fica nas pessoas
A Bíblia registra, em contraste, a história de Jeorão, rei de Judá. Ao descrever a sua morte, o cronista resume a vida dele com uma frase triste: ele partiu sem deixar saudades (2Crônicas 21.20). Ocupou o trono, teve poder e recursos, mas não deixou marcas de bem na vida do povo.
Servir mal, ou simplesmente não servir, afeta aquilo que deixamos depois de nós. Herança é o que deixamos para as pessoas, enquanto legado “é o que se deixa nas pessoas”. Bens podem ser divididos e gastos; o amor investido em alguém permanece.
Seja em casa, na igreja, no trabalho ou entre amigos, o seu dom pode ser exatamente a resposta que alguém está esperando. Uma pessoa que serve com alegria, movida pelo Espírito, leva consolo, luz e esperança por onde passa. É assim que um dom se transforma em legado.
Dom e caráter amadurecem juntos
Existe um risco no desenvolvimento dos dons: usá-los para promover a nós mesmos. Quando o foco passa a ser o reconhecimento, o aplauso ou a visibilidade, o dom perde a sua finalidade. Quando o foco é o Reino, Deus amplia o alcance daquilo que fazemos.
Por isso, os dons precisam amadurecer junto com o caráter. Um dom muito exposto antes do tempo pode gerar soberba; um caráter formado em Deus dá sustentabilidade ao serviço. Nem todo dom precisa ser exibido cedo demais. Na vida cristã, a maturidade vem antes da visibilidade.
Aqui também entra a importância de caminhar em comunhão e sob orientação espiritual. O conselho de líderes e irmãos maduros protege contra o orgulho e contra desvios de propósito. Ninguém desenvolve bem os seus dons isoladamente.
Acima de tudo, nenhum dom substitui a intimidade com Deus. Kelly Subirá resume isso ao lembrar que dons impressionam pessoas, mas é o caráter que sustenta o chamado. O que fazemos para Deus nunca deve ocupar o lugar de quem somos diante dele.
Que legado você deseja deixar nas pessoas que convivem com você?
Texto baseado no livro “50 Conselhos de Uma Cinquentona“, de Kelly Subirá. Adquira já em loja.orvalho.com