Quando a vida não sai como planejamos
Todo cristão já fez planos e orou por eles. Planejou uma carreira, uma família, uma mudança, uma cura. Em algum momento, porém, a realidade tomou outro rumo: a porta não se abriu, o diagnóstico não mudou, a resposta não veio no tempo esperado.
É nesse ponto que surge a pergunta deste estudo: como confiar nos planos de Deus quando eles parecem tão diferentes dos nossos? No livro 50 conselhos de uma cinquentona, Kelly Subirá observa que “Confiar em Deus é fácil quando tudo vai bem”. A verdadeira confiança, portanto, não se revela nos dias de sol, mas nas estações difíceis.
A Escritura não promete uma vida sem tempestades. Ela promete um Deus que permanece fiel no meio delas.
A confiança que é provada no escuro
Confie no SENHOR de todo o seu coração e não se apoie no seu próprio entendimento. Reconheça o SENHOR em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas. Provérbios 3.5,6
Salomão não diz “confie no Senhor quando entender o que ele está fazendo”. Ele diz “de todo o seu coração” e, logo em seguida, pede que não nos apoiemos no próprio entendimento. O texto já pressupõe que haverá momentos em que nossa lógica não alcançará os caminhos de Deus.
Apoiar-se é colocar todo o peso sobre algo que acreditamos ser firme o bastante para não ceder. A pergunta, então, é: onde você tem se apoiado? Nas explicações que consegue montar, nas garantias que consegue ver, ou no próprio Deus?
Deus não promete que o caminho será curto ou sem curvas, mas que ele o endireitará. Quem endireita as veredas é ele; a nossa parte é reconhecê-lo em cada uma delas.
Uma fé ancorada em quem Deus é
Nos dias difíceis, a tentação é medir Deus pelo que sentimos ou pelo que conseguimos enxergar. Se as coisas melhoram, concluímos que ele está perto; se pioram, que se afastou. Kelly Subirá lembra que a fé não depende das emoções, mas “se ancora no caráter imutável de Deus”.
Essa é a chave do estudo inteiro. As circunstâncias mudam a cada semana; o caráter de Deus não muda nunca. Ele “é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hebreus 13.8). Quando não entendemos o que Deus está fazendo, podemos descansar no que sabemos sobre quem ele é: fiel, bom, justo e amoroso.
A autora conta como viveu isso no parto do primeiro filho. Após uma gestação tranquila, uma complicação grave levou a uma cesárea de emergência, em meio à correria e à preocupação da equipe médica. Ali, sem controle algum da situação, ela escolheu descansar nos cuidados do Pai. O bebê nasceu saudável, e ela concluiu que confiar é uma decisão de fé.
Nem toda história termina com o desfecho que pedimos em oração. Mas toda história do povo de Deus é sustentada pelo mesmo Deus. Por isso, confiar nos seus planos não é entender cada passo, mas, descansar em tudo o que ele é.
Quando Deus parece em silêncio
Uma das provas mais duras da confiança é o silêncio. Oramos, esperamos, e nada parece acontecer. O profeta Habacuque conhecia esse sentimento e o levou diretamente a Deus:
“Até quando, SENHOR, clamarei pedindo ajuda, e tu não me ouvirás?” Habacuque 1.2.
Repare que Habacuque não esconde a pergunta nem finge uma fé que não sente. Ele leva sua inquietação ao lugar certo. A resposta de Deus não explica todos os detalhes, mas chama o profeta a esperar: a visão tem o seu tempo, e, ainda que demore, certamente virá (Habacuque 2.3).
O livro termina com uma das declarações de fé mais bonitas das Escrituras. Mesmo que a figueira não floresça, que falte fruto na videira e que os currais fiquem vazios, o profeta decide: “mesmo assim eu me alegro no SENHOR” (Habacuque 3.18). As circunstâncias não haviam mudado; o que mudou foi o lugar onde Habacuque firmou o coração.
O silêncio de Deus não é sinônimo de ausência. Muitas vezes, é o tempo em que a fé amadurece, quando aprendemos a ser guiados pelo que cremos, e não apenas pelo que sentimos.
Confiar não é deixar de chorar
Existe uma ideia equivocada de que quem confia em Deus não sofre, não chora e não se angustia. A Bíblia mostra o contrário. Os Salmos estão cheios de lamentos honestos, e o próprio Jesus, no Getsêmani, disse estar com a alma “profundamente triste até a morte” (Mateus 26.38).
O que Jesus fez com essa angústia é o maior exemplo de confiança que existe. Ele expressou ao Pai o desejo de que aquele cálice passasse, mas concluiu: “não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mateus 26.39). A dor foi real, e a entrega também.
Kelly Subirá resume esse equilíbrio ao afirmar que “A Bíblia legitima a dor, mas nunca a desesperança”. Confiar nos planos de Deus não elimina as lágrimas, mas impede que elas se transformem em desespero. Podemos chorar diante de Deus sem deixar de caminhar com ele.
A memória que sustenta a fé
O livro de Lamentações foi escrito sobre as ruínas de Jerusalém. Em meio a tanta destruição, o autor faz uma escolha decisiva:
Quero trazer à memória o que pode me dar esperança. As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. Lamentações 3.21-23
A esperança do profeta não nasceu de uma melhora nas circunstâncias, mas da lembrança de quem Deus sempre foi. Por isso a autora afirma que “A memória espiritual fortalece a fé presente”.
Ao longo da Bíblia, Deus ensina o seu povo a lembrar. Samuel ergueu uma pedra e a chamou de Ebenézer, dizendo: “Até aqui nos ajudou o SENHOR” (1Samuel 7.12). Israel celebrava a Páscoa para nunca esquecer a libertação do Egito.
Quando o presente está confuso, olhar para trás nos lembra que o mesmo Deus que foi fiel ontem continua no controle hoje. Cada oração respondida e cada livramento são marcos de que ele nunca deixou de agir.
Descansar em quem conduz a história
Confiar nos planos de Deus não significa ter todas as respostas. José não tinha, Habacuque não tinha, e nem nós teremos. Significa reconhecer que a nossa visão é parcial, enquanto a de Deus é completa.
Eu é que sei que pensamentos tenho a respeito de vocês, diz o SENHOR. São pensamentos de paz e não de mal, para dar-lhes um futuro e uma esperança. Jeremias 29.11
Essa promessa foi dada a um povo no exílio, longe de casa e sem perspectiva de volta imediata. Deus não negou a dor do momento, mas lembrou que o fim da história estava nas mãos dele.
Talvez você não entenda o capítulo que está vivendo hoje. Ainda assim, pode escolher confiar no Autor. Ele não perdeu o controle da sua história e continua digno da sua confiança, mesmo quando o caminho parece escuro.
Texto baseado no livro “50 Conselhos de Uma Cinquentona“, de Kelly Subirá. Adquira já em loja.orvalho.com