Já vimos que a Bíblia não estabelece uma lista fixa de regras alimentares para o cristão. Mas isso não significa que a alimentação seja um assunto indiferente. Entre a liberdade e a irresponsabilidade existe um caminho de sabedoria que passa por três perguntas práticas: quanto comer, o que comer e quando comer.
Neste estudo, vamos olhar para exemplos bíblicos que iluminam cada uma dessas perguntas e para alguns princípios que podem nos ajudar a cuidar melhor do corpo que Deus nos confiou.
QUANTO COMER
A comida é sustento, mas também prazer.
A Escritura apresenta o alimento como fonte de sustento:
“Tendo o que comer e o que vestir, estejamos contentes” 1 Timóteo 6:8.
Ao mesmo tempo, a Bíblia mostra que a comida também é fonte de prazer. O problema surge quando a alimentação passa a ser tratada apenas como prazer, como se toda refeição fosse uma festa.
O ideal, salvo exceções em ocasiões de celebração, é comer o que precisamos para a manutenção do corpo, tanto em nutrientes quanto em energia. E a Bíblia mostra a sabedoria de quem aprende a manter o prazer sob controle:
“Feliz é você, ó terra cujo rei é filho de nobres e cujos príncipes se sentam à mesa a seu tempo para refazer as forças e não para se embriagar.” Eclesiastes 10:17
Nem toda refeição precisa ser festiva. O foco deve ser o sustento do corpo, como na orientação dada ao levita em Juízes 19:5: “Coma alguma coisa, para você ter mais força para a viagem.”
Exemplos bíblicos: comer por necessidade
Repare em dois relatos em que a razão para comer é claramente a fome, e nada além disso:
Jesus e a figueira:”Jesus teve fome. E, vendo de longe uma figueira com folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa.” Marcos 11:12-13
Pedro no terraço:”Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase.” Atos 10:9-10
A Escritura poderia apenas registrar a visão de Pedro, mas faz questão de registrar que ele estava com fome. E Paulo nos lembra que “tudo o que no passado foi escrito, para o nosso ensino foi escrito” (Romanos 15:4). A ênfase permanece: a alimentação está ligada à necessidade, não ao excesso.
Como avaliar se estamos comendo o suficiente
Uma boa forma de avaliar é observar se nos levantamos da mesa saciados ou empanturrados. Muitas pessoas comem por razões emocionais, buscando conforto e prazer nos alimentos. O objetivo deveria ser simplesmente saciar a fome, que é o sinal natural do corpo de que precisa de alimento. O peso corporal também pode ser um indicador: quilos excedentes, em geral, sugerem que ajustes precisam ser feitos, seja na quantidade, seja na qualidade dos alimentos.
Uma orientação prática interessante é ajustar quando comemos, e não necessariamente quanto comemos em cada refeição.
Isso não implica subnutrição. Exige disciplina e escolhas alimentares baseadas em motivos nutricionais, e não apenas no paladar.
O QUE COMER
Há um episódio bíblico que nos faz refletir sobre a qualidade dos alimentos que escolhemos ingerir. Havia fome na terra, e Eliseu mandou preparar um cozido para os discípulos dos profetas:
“Então um deles saiu para o campo a fim de apanhar ervas. Ele achou uma trepadeira silvestre e, colhendo os frutos, encheu a sua capa com eles. Voltou para casa, cortou os frutos em pedaços e os pôs na panela, mesmo sem saber o que eram. […] Enquanto comiam do cozido, gritaram: Morte na panela, ó homem de Deus! E não puderam comer.” 2 Reis 4:38-41
O fruto colhido era tóxico. Estudiosos, como F. F. Bruce e Matthew Henry, indicam que a planta provavelmente era a colocíntida, uma fruta de aparência parecida com a laranja, poderoso catártico e, em grandes quantidades, bastante venenoso.
Por que um alimento tóxico foi parar na panela? O texto indica que o erro não foi intencional, mas fruto da ignorância de quem preparou a comida. E aqui há um paralelo com a nossa realidade: hoje também há “morte nas panelas”. Muito do que se come tem levado o corpo a uma série de disfunções, debilidades, doenças e até morte prematura.
Um milagre que foi exceção
O milagre de Eliseu foi exceção, não regra. Não há qualquer registro de que tenham voltado a ingerir colocíntidas só porque Deus interveio naquela ocasião. Embora não exista um versículo que proíba explicitamente o consumo desse fruto, o bom senso deve nos conduzir a restrições autoimpostas quanto ao que não é saudável.
Por isso, a orientação é evitar ao máximo o consumo de alimentos industrializados e processados, além de ter cautela com alimentos como o leite e alguns de seus derivados, o glúten e o açúcar, cujo consumo elevado tem deixado um rastro de problemas de saúde maior do que costumamos mensurar.
A seletividade alimentar não visa somente à boa nutrição. O intestino, diretamente impactado pelo que comemos, é responsável por boa parte da produção hormonal e pela regulação da imunidade.
Um artigo publicado no portal “O Estado” alerta que a disbiose (desequilíbrio da microbiota intestinal) pode afetar a absorção de nutrientes, a digestão, o sistema imunológico e a qualidade de vida, e que sua principal causa está relacionada à má alimentação, especialmente ao consumo exagerado de alimentos industrializados, carboidratos refinados, açúcar e gorduras saturadas.
Ao contrário do rapaz que saiu para buscar alimento e colocou na panela o que não conhecia, que não sejamos ignorantes quanto ao que colocamos na nossa panela. Vale o investimento de tempo e recursos para estudar a alimentação e o funcionamento do corpo.
QUANDO COMER
Salvo exceções como a prática do jejum, a alimentação (assim como o sono) é um evento diário. Tiago escreve:
“Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa e necessitando do alimento diário…” Tiago 2:15.
A palavra grega traduzida como “diário” é ephémeros, que significa “que dura por um dia; diariamente”.
Mas quantas refeições diárias seriam corretas? Que intervalos deveriam ser respeitados? A Palavra de Deus não estabelece horários para alimentação, embora registre como as pessoas, cujas histórias estão contidas no Livro Sagrado, se alimentavam naquela época. E, nesses registros, encontramos o padrão das três principais refeições: o desjejum, o almoço e a ceia (ou jantar) — com exemplos de Jesus participando de cada uma delas.
Desjejum
A Bíblia registra pessoas comendo logo ao amanhecer. Um desses exemplos envolve Cristo e os discípulos:
“Ao romper do dia, Jesus estava na praia, mas os discípulos não reconheceram que era ele. Jesus lhes perguntou: Filhos, será que vocês têm aí alguma coisa para comer? Eles responderam: Não.” João 21:4-5
O levita de Juízes 19:5 também é convidado a comer algo ao quarto dia, ao se levantar para partir, para ter força para a viagem.
Almoço
Há também registros de pessoas almoçando, ou seja, comendo ao meio-dia:
“Leve estes homens para casa, mate um animal e prepare tudo, pois estes homens comerão comigo ao meio-dia.” Gênesis 43:16
Jesus, junto ao poço de Jacó, “por volta do meio-dia”, enquanto os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos e depois lhe diziam: “Mestre, coma!” João 4:6-8,31
Jantar
Depois de ressuscitado, Jesus aparece a dois discípulos no caminho de Emaús e, ao ser hospedado ao fim do dia, participa de uma refeição:
“Fique conosco, porque é tarde, e o dia já está chegando ao fim. E entrou para ficar com eles. E aconteceu que, quando estavam à mesa, ele pegou o pão e o abençoou; depois, partiu o pão e o deu a eles.” Lucas 24:28-30
Isso não significa que devamos fazer três refeições ou que elas precisem ocorrer sempre nos mesmos horários. Apenas reconhece que esse padrão é predominante em diversas culturas e aparece com recorrência na história da humanidade.
Quantas refeições? O que a história e a ciência sugerem
Até recentemente, vários profissionais da nutrição defendiam a importância de comer a cada três horas. No entanto, essa teoria esbarra em incoerências. O ser humano, ao longo da história, jamais dispôs da abundância e da facilidade de acesso a alimentos que temos hoje. Por séculos, as pessoas não tiveram condições de manter intervalos curtos de alimentação, e é difícil crer que Deus tenha criado o corpo humano com uma necessidade que, durante a maior parte da história, não seria atendida.
Além disso, intervalos menores entre refeições tendem a produzir desequilíbrio hormonal. Sem intervalos maiores, a insulina permanece elevada, e níveis elevados por longos períodos contribuem para a resistência insulínica e, com o tempo, para diversos problemas de saúde. O Dr. Jason Fung explica que, quando não há ingestão de alimentos, os níveis de insulina caem e a queima de açúcar e gordura é ativada, e que, enquanto os períodos de alimentação e jejum estiverem em equilíbrio, o sistema se mantém equilibrado. Como ele exemplifica: se tomarmos o café da manhã às 7 horas e terminarmos de jantar às 19 horas, as 12 horas de alimentação equilibram as 12 horas de jejum.
Jejum intermitente: um treino para a vida jejuada
Uma forma prática de aplicar esse princípio é o jejum intermitente. A palavra “intermitente” significa “intervalado” ou “interrompido”; trata-se de determinar uma janela diária de tempo para se alimentar e deixar de comer no restante do dia. Isso tem mais a ver com a duração do que com o tipo de jejum.
Reduz-se a quantidade de refeições e amplia-se o intervalo entre a última refeição de um dia e a primeira do outro, sem que necessariamente se altere a ingestão diária total de alimentos. Trata-se de um exercício de domínio próprio e de um treinamento do corpo, especialmente valioso para quem não consegue ficar muito tempo sem “beliscar” alguma coisa.
Além de ser um recurso saudável, o jejum intermitente é um excelente meio de exercício e treinamento para jejuns maiores, e uma das versões mais suaves do jejum parcial. Também é um recurso de detoxificação e de autocontrole, e compõe o que se pode chamar de uma vida jejuada.
Quanto, o que e quando comer são perguntas que a Bíblia não responde com uma tabela, mas ilumina com princípos.
Mais do que adotar uma alimentação saudável, pautada pelo autocontrole e por restrições autoimpostas, todo cristão é convidado a acrescentar a prática do jejum ao seu estilo de vida, não apenas pelos benefícios espirituais dessa disciplina, mas também pelo impacto positivo que ela pode ter sobre a nossa saúde.
Vale lembrar: as orientações nutricionais devem ser individualizadas, e o acompanhamento de médicos e nutricionistas é recomendável, sobretudo para quem tem alguma condição de saúde.