Todo cristão sabe que a conversão é o começo, não o fim. Nascemos de novo em Cristo, fomos perdoados e recebemos uma nova vida. Ainda assim, continuamos percebendo em nós reações, hábitos e sentimentos que não se parecem com Jesus.
Isso não significa que não estamos sendo transformados, mas que Deus ainda está trabalhando. E a boa notícia é que não fazemos esse caminho sozinhos: o próprio Espírito Santo foi enviado para habitar em nós e realizar essa obra.
E todos nós, com o rosto descoberto, contemplando a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito. 2Coríntios 3.18
Repare na expressão: “somos transformados”. Paulo não descreve um esforço humano de autoaperfeiçoamento, mas uma obra que o Espírito realiza em quem contempla o Senhor. A nossa parte é permanecer diante dele; a transformação é obra dele.
O Espírito Santo é Deus agindo em nós
Muitos cristãos pensam no Espírito Santo como uma força impessoal, uma energia que aparece nos cultos mais intensos ou um recurso para momentos de crise. A Bíblia apresenta algo muito diferente. Na véspera da cruz, Jesus prometeu aos discípulos:
E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre: é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês. João 14.16-17
O Espírito não é uma visita ocasional; ele habita em nós. Jesus o chama de “outro Consolador”, alguém da mesma natureza que ele, que continuaria o seu cuidado depois da ascensão. Logo adiante, o Senhor acrescenta que o Espírito ensinaria todas as coisas e faria os discípulos se lembrarem de tudo o que ele havia dito (João 14.26).
Guiar, ensinar, consolar e transformar: esse é o trabalho de Deus em nós por meio do seu Espírito. A pergunta, então, não é se ele está agindo, mas se temos permitido que ele aja.
O barro nas mãos do Oleiro
Deus, certa vez, mandou o profeta Jeremias descer à casa de um oleiro para aprender uma lição sem palavras. Ali, o profeta viu o artesão trabalhando o barro sobre a roda:
Como o vaso que o oleiro fazia de barro se estragou nas suas mãos, ele tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu. Jeremias 18.4
O vaso se estragou, mas o oleiro não jogou o barro fora. Ele recomeçou. Em seguida, Deus explicou o sentido da cena: “como o barro na mão do oleiro, assim são vocês na minha mão” (Jeremias 18.6).
Há consolo porque nossas falhas não esgotam a paciência de Deus; ele continua trabalhando no mesmo barro. Desafio, porque barro não dita a forma que quer ter. Ser moldado é aceitar que as mãos do Oleiro sabem mais do que nós sobre aquilo que precisamos nos tornar. Como resume Kelly Subirá, “Ele sabe o que fazer com o barro que somos”.
De glória em glória
A expressão de Paulo, “de glória em glória”, revela que a transformação é progressiva. Ninguém se torna parecido com Jesus de um dia para o outro. É um processo diário, cheio de desafios, mas também cheio de graça.
Nesse processo, o Espírito nos convence do pecado, nos mostra o caminho e produz em nós algo que não conseguiríamos fabricar sozinhos:
Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei. Gálatas 5.22-23
Paulo fala em “fruto”, no singular, e não em “frutos” que escolhemos cultivar um a um. É o caráter de Cristo crescendo em nós como um todo.
Estou certo de que aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus. Filipenses 1.6
Seria desonesto dizer que esse processo é sempre confortável. Permitir que o Espírito nos molde significa deixar que ele toque em áreas que preferiríamos esconder. Significa ouvir quando ele aponta atitudes que precisamos mudar, palavras que devemos evitar e sentimentos que precisamos entregar.
A Escritura não esconde essa dor, mas mostra o que ela produz:
Na verdade, toda disciplina, ao ser aplicada, não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza. Porém, mais tarde, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça. Hebreus 12.11
O autor de Hebreus lembra que Deus nos disciplina “para o nosso próprio bem, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hebreus 12.10). O Espírito não confronta para envergonhar, mas para curar. Cada correção é um convite à rendição e, ao mesmo tempo, um passo rumo à liberdade.
Talvez você esteja vivendo uma estação em que Deus está mexendo em algo profundo. Em vez de resistir, pergunte: o que o Oleiro está formando em mim por meio disso?
Texto baseado no livro “50 Conselhos de Uma Cinquentona“, de Kelly Subirá. Adquira já em loja.orvalho.com