A religiosidade é uma das formas mais perigosas de engano espiritual, porque ela preserva a aparência de piedade enquanto esvazia o coração daquilo que realmente agrada a Deus. O problema não está em demonstrar devoção, orar, jejuar, ofertar, frequentar cultos ou servir. Todas essas práticas fazem parte da vida cristã. O problema começa quando a forma se torna mais importante do que a essência, quando a imagem que os outros têm de nós passa a valer mais do que aquilo que Deus vê em secreto.
Jesus confrontou esse tipo de vida aparente.
“Jesus respondeu: — Bem profetizou Isaías a respeito de vocês, hipócritas, como está escrito: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.”” Marcos 7:6-7
Esse é o centro da questão. Deus não rejeita o culto dos lábios, mas rejeita o culto que sai apenas dos lábios. A boca pode declarar amor, reverência e obediência, mas, se o coração estiver distante, tudo se transforma em encenação religiosa.
E é por isso que a vida cristã não pode ser sustentada por performance. Deus não procura uma espiritualidade bem apresentada aos olhos humanos, mas um coração rendido, sincero e obediente diante dele.
O perigo da aparência de piedade
Desde o início da história humana, a aparência tem sido uma tentativa de esconder aquilo que precisa ser tratado por Deus. Depois do pecado, Adão e Eva perceberam sua nudez, fizeram folhas de figueira para se cobrir e se esconderam da presença do Senhor. Antes de lidarem com a ruptura causada pela desobediência, tentaram administrar a própria imagem.
Esse impulso continua presente em nós. Temos facilidade de maquiar fragilidades, esconder pecados, disfarçar frieza espiritual e construir uma versão mais aceitável de nós mesmos diante das pessoas. O problema é que Deus não se impressiona com folhas de figueira. Ele vê além da aparência, além das palavras, além das atitudes públicas e além da reputação que conseguimos sustentar.
Paulo advertiu que, nos últimos dias, haveria pessoas “tendo forma de piedade, mas negando o poder dela” (2 Timóteo 3.5). Essa expressão é séria. É possível manter a forma, a linguagem, os gestos e os costumes da fé, enquanto o poder transformador de Deus já não governa a vida. A pessoa continua parecendo piedosa, mas não está sendo transformada. Continua parecendo obediente, mas já não vive em rendição. Continua parecendo cheia de zelo, mas seu coração se move mais pelo reconhecimento humano do que pelo desejo sincero de agradar ao Senhor.
Jesus falou sobre esmolas, oração e jejum em Mateus 6, deixando claro que até práticas espirituais corretas podem ser corrompidas por motivações erradas. Ele não proibiu a oração pública, o jejum ou a generosidade. O que ele confrontou foi o desejo de usar essas práticas para construir uma imagem espiritual diante dos outros.
A pergunta que precisamos fazer é: a quem estamos tentando agradar?
Quando oro, sirvo, contribuo, ensino ou jejuo, estou buscando a aprovação de Deus ou a admiração das pessoas? Estou cultivando comunhão real com o Pai ou tentando causar a impressão de que sou mais espiritual do que realmente sou? Jesus ensinou que o Pai vê em secreto. Isso deveria nos libertar da necessidade de viver em evidência.
A verdadeira espiritualidade não precisa se esconder, mas também não precisa se promover. O sal e a luz cumprem seu papel sem transformar a própria missão em espetáculo. Jesus disse que devemos deixar nossa luz brilhar diante dos homens para que eles vejam nossas boas obras e glorifiquem o Pai, não para que glorifiquem a nossa imagem (Mateus 5.16).
Obediência vale mais do que aparência
A religiosidade gosta de parecer obediente, mas Deus procura obediência real. Jesus contou a parábola de dois filhos: um disse que obedeceria ao pai, mas não foi; o outro começou resistindo, porém arrependeu-se e obedeceu.
“— O que vocês acham? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: “Filho, vá hoje trabalhar na vinha.” Ele respondeu: “Não quero ir.” Mas depois, arrependido, foi. Dirigindo-se ao outro filho, o pai disse a mesma coisa. Ele respondeu: “Sim, senhor.” Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Eles responderam: — O primeiro. Então Jesus disse: — Em verdade lhes digo que os publicanos e as prostitutas estão entrando no Reino de Deus primeiro que vocês. Porque João veio até vocês no caminho da justiça, e vocês não acreditaram nele; no entanto, os publicanos e as prostitutas acreditaram. Vocês, porém, mesmo vendo isso, não se arrependeram depois para acreditar nele.” Mateus 21:28-32
O filho que agradou ao pai não foi o que respondeu melhor, mas o que mudou de postura e praticou a vontade dele.
Podemos aprender a falar como bons cristãos, responder corretamente, repetir verdades bíblicas e ainda assim esconder uma vida de desobediência. Tiago escreveu: “Sejam praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando a vocês mesmos” (Tiago 1.22). O ouvinte que não pratica não engana Deus. Ele engana a si mesmo.
A prática da Palavra é o que autentica a obediência. Não basta conhecer mandamentos, admirar sermões, frequentar ambientes cristãos ou dominar a linguagem da fé. A Palavra precisa atravessar nossas escolhas, corrigir nossos caminhos, quebrantar nosso orgulho e produzir frutos visíveis de transformação.
A religiosidade endurece o coração
Uma das razões pelas quais a religiosidade é tão perigosa é que ela vacina o pecador contra o arrependimento. Quem vive em pecado evidente pode, em algum momento, perceber sua condição e clamar por misericórdia. Mas quem está escondido atrás de uma aparência de justiça própria dificilmente reconhece que precisa mudar.
Jesus contou a parábola do fariseu e do publicano. O fariseu orava apresentando suas práticas religiosas como prova de superioridade. O publicano, por sua vez, nem ousava levantar os olhos, mas clamava: “Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador!” (Lucas 18.13). Jesus afirmou que este voltou justificado para casa, e não aquele.
O problema do fariseu não era jejuar, dar o dízimo ou evitar certos pecados. O problema era confiar em sua própria justiça e desprezar os outros. A aparência religiosa o cegou. Ele estava no templo, mas longe do quebrantamento. Ele orava, mas não se arrependia. Ele falava com Deus, mas não enxergava a própria necessidade.
Escudos de ouro ou de bronze?
A história de Roboão ilustra muito bem o perigo de substituir a essência por aparência. Quando Sisaque, rei do Egito, tomou os tesouros da casa do Senhor e os escudos de ouro que Salomão havia feito, Roboão mandou fazer escudos de bronze no lugar deles (1 Reis 14.25-27). Em vez de recuperar o ouro perdido, ele providenciou uma substituição mais barata, mais fácil e parecida o suficiente para manter a aparência diante de quem olhasse de longe.
Quantas vezes trocamos o ouro por bronze em nossa vida com Deus? Perdemos profundidade na oração, mas mantemos a linguagem espiritual. Perdemos fome pela Palavra, mas preservamos uma imagem de conhecimento bíblico. Perdemos quebrantamento, mas continuamos com gestos religiosos. Perdemos intimidade com Deus, mas seguimos polindo escudos de bronze para que pareçam ouro aos olhos de quem não se aproxima demais.
O problema é que Deus vê de perto. Ele sabe quando há um tanque vazio por trás de uma aparência cheia. Ele sabe quando há bronze polido no lugar do ouro perdido.
A cura para a vida de aparência começa no secreto, em um lugar de verdade diante de Deus. É ali que paramos de atuar, deixamos de defender nossa imagem e confessamos o que está seco, o que está frio, o que está quebrado e o que precisa ser restaurado.
Jesus disse: “Sem mim vocês não podem fazer nada” (João 15.5).
Como precisamos nos lembrar dessa verdade! Não apenas a nossa teologia, mas nossa vida diária. Dependemos de Deus para tudo, inclusive para viver uma vida cristã verdadeira. O orgulho e a vanglória são vencidos quando reconhecemos continuamente que tudo vem dele, passa por ele e deve voltar para ele.
Não fomos chamados para parecer espirituais. Fomos chamados para sermos transformados. Não fomos chamados para sustentar uma imagem religiosa. Fomos chamados para viver diante de Deus com inteireza, arrependimento, obediência e verdade.
A aparência pode impressionar pessoas por algum tempo, mas somente a essência agrada ao Pai. E quando a essência é restaurada, a luz deixa de ser propaganda de nós mesmos e se torna testemunho da graça de Deus.
Texto baseado no livro Até que nada mais importe, de Luciano Subirá. Adquira em loja.orvalho.com