AMADO POR DEUS, AGRADÁVEL AO PAI.
Há poucas verdades tão libertadoras quanto saber que Deus nos ama. Mas há poucas verdades tão perigosas quanto compreender esse amor de forma incompleta.
Muitos cristãos vivem como se precisassem conquistar o amor do Pai por meio de sua obediência. Outros caminham na direção oposta, porque sabem que são amados, concluem que Deus já está plenamente satisfeito com a maneira como vivem. As duas posturas revelam um mesmo problema: confundir aquilo que Deus sente por nós com aquilo que ele espera de nós.
A Bíblia nunca coloca essas duas verdades em oposição. Ela afirma, ao mesmo tempo, que somos profundamente amados e que somos chamados a viver de maneira agradável ao Senhor. Quando essas duas realidades são separadas, inevitavelmente surgem culpa, orgulho, acomodação ou religiosidade.
O AMOR DE DEUS DEFINE QUEM SOMOS; A OBEDIÊNCIA REVELA QUEM ESTAMOS NOS TORNANDO
Um filho não deixa de ser filho quando erra. Sua identidade permanece a mesma. O amor dos pais não aumenta quando ele tira boas notas nem diminui quando fracassa. O vínculo familiar não é construído pelo desempenho.
Entretanto, isso não significa que seu comportamento seja indiferente. O mesmo pai que ama também deseja ver o filho amadurecer, desenvolver caráter, responsabilidade e sabedoria. Não porque precise merecer o amor recebido, mas justamente porque já o possui. É exatamente essa lógica que encontramos nas Escrituras.
Nossa adoção não foi conquistada pelas obras. “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus” (1Jo 3.1). Antes mesmo de fazermos qualquer coisa por Ele, Cristo morreu por nós (Rm 5.8). Nosso valor está firmado na obra da cruz, nunca em nossa performance espiritual.
Ao mesmo tempo, a Bíblia afirma repetidas vezes que Deus se agrada ou não da maneira como seus filhos vivem. Paulo escreve aos tessalonicenses:
“Assim como recebestes de nós a maneira por que deveis viver e agradar a Deus… continueis progredindo cada vez mais” 1 Tessalonicenses 4.1.
Note que ele não diz para aprenderem a ser amados. Isso eles já eram. O convite é aprender a viver de modo agradável ao Pai.
O LEGALISMO
No legalismo, o cristão vive tentando convencer Deus de que merece seu favor. Cada disciplina espiritual torna-se uma moeda de troca. Ora mais para sentir-se aceito. Jejua para compensar erros. Serve esperando ganhar pontos diante do céu.
Mas o evangelho destrói essa lógica. O filho pródigo voltou para casa acreditando que precisaria reconquistar o coração do pai. Entretanto, antes mesmo de qualquer explicação, o pai correu ao seu encontro, o abraçou e o restaurou (Lc 15.20-24). O amor antecedeu qualquer demonstração de merecimento. Por outro lado, existe um segundo extremo igualmente perigoso.
Alguns concluem que, se Deus os ama incondicionalmente, pouco importa como vivem. A graça passa a justificar uma vida superficial. A santidade deixa de ser prioridade. Mas esse nunca foi o ensino das Escrituras. Quem realmente experimenta o amor de Deus deseja agradar aquele que tanto o amou.
Existe uma enorme diferença entre amar alguém e aprovar tudo o que essa pessoa faz.
Foi exatamente isso que Jesus demonstrou aos seus discípulos. Todos eram profundamente amados, mas eram constantemente corrigidos, confrontados e chamados a crescer. O amor permaneceu constante. O convite ao amadurecimento também.
Em Ezequiel 47, o rio já estava ali. Não era o rio que precisava alcançar o profeta; era o profeta quem precisava entrar mais profundamente nele.
As águas começaram nos tornozelos, depois chegaram aos joelhos, aos lombos e finalmente tornaram-se profundas demais para serem atravessadas andando.
Essa figura revela que todos os filhos têm acesso ao rio, mas nem todos decidem entrar nele da mesma forma. Alguns permanecem na margem durante toda a vida cristã. Outros se contentam com águas rasas. Há aqueles que avançam até perder o controle e confiar completamente na correnteza do Espírito.
Nenhuma dessas posições muda o amor de Deus por eles, mas muda profundamente aquilo que experimentam de Deus.
A intimidade cresce na medida em que respondemos ao convite divino.
A RESPOSTA DA FÉ DETERMINA A EXPERIÊNCIA
Esse mesmo princípio aparece na história do rei Joás diante do profeta Eliseu (2Rs 13.14-19). Deus já havia declarado vitória sobre os sírios. Entretanto, Eliseu ordenou que Joás golpeasse a terra com as flechas. O rei fez isso apenas três vezes e parou.
O profeta se indignou. Se tivesse perseverado, teria destruído completamente o inimigo. Sua resposta limitada restringiu aquilo que experimentaria da promessa. Não foi Deus quem limitou a vitória, mas a pequena resposta de fé do próprio rei.
O mesmo acontece conosco, as promessas pertencem aos filhos. Mas a intensidade com que desfrutamos delas está diretamente ligada à maneira como respondemos ao Senhor.
Outro exemplo apresentado pelo está na palavra dada ao povo por meio do profeta Ageu:
Enquanto cada um corria para cuidar da própria casa, a Casa do Senhor permanecia abandonada (Ag 1.6-9). O resultado era uma vida marcada por frustração constante, trabalhavam muito, mas colhiam pouco. Quando reorganizaram suas prioridades, Deus respondeu:
“Desde este dia vos abençoarei” Ageu 2.19.
Não se trata de uma barganha espiritual. É o princípio da reciprocidade presente em toda a Escritura.
“Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” Mateus 6.33
Quem ama o Pai aprende naturalmente a colocar os interesses do Pai acima dos próprios.
Texto baseado no livro Até que nada mais importe, de Luciano Subirá. Adquira em loja.orvalho.com