No livro O Profeta Gentil, Israel Subirá trata do amor como o eixo central da vida cristã. Se o poder é indispensável para cumprir a missão, o amor é o que orienta o uso desse poder. Sem ele, até as principais manifestações espirituais perdem seu valor.
Para compreender essa dimensão, o autor começa explicando um detalhe importante do Novo Testamento: a palavra grega usada para amor.
Ágape: o amor sacrificial
No grego, há diferentes termos para amor. Cada um descreve uma dimensão distinta desse sentimento. O Novo Testamento, porém, frequentemente utiliza ágape, termo que expressa um amor sacrificial, que se doa em favor do outro.
Em português, usamos a mesma palavra para muitas situações. Dizemos que amamos nossa família e também que amamos um determinado alimento. No entanto, no texto bíblico, a escolha do termo revela profundidade teológica.
Um exemplo aparece em João 21, quando Jesus pergunta a Pedro: “Você me ama?” Nesse diálogo, Jesus pergunta usando ágape, amor sacrificial. Pedro responde usando phileo, amor fraternal.
Na prática, Pedro estava sendo honesto sobre o estágio do seu coração. Pouco antes, ele havia prometido que morreria por Jesus, mas o negou três vezes. Agora, diante do Mestre, reconhece que seu amor ainda não alcançava a dimensão sacrificial.
Essa cena revela que o amor cristão não é estático. Ele pode crescer. O que começa como afeição sincera pode amadurecer até tornar-se entrega total.
O maior mandamento
Quando Jesus foi questionado sobre qual era o maior mandamento, sua resposta foi clara:
“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.” (Mt 22.37)
E imediatamente ele acrescentou:
“Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.” (Mt 22.39)
Jesus não apenas citou dois mandamentos. Ele revelou o princípio que sustenta toda a Lei e os Profetas. Em outras palavras, todo o ensino das Escrituras converge para o amor.
O apóstolo Paulo reforça essa ideia ao escrever aos gálatas:
“Toda a lei se cumpre em um só preceito: ame o seu próximo como a você mesmo.” (Gl 5.14)
Ao falar sobre o poder do Espírito Santo, Israel Subirá deixa claro que o sobrenatural é essencial para a missão da Igreja. Contudo, ele também afirma que o amor tem prioridade sobre o poder.
Essa perspectiva aparece de forma contundente em 1 Coríntios 13. Paulo afirma que alguém pode falar línguas, profetizar, possuir grande conhecimento e até demonstrar fé capaz de mover montanhas. Ainda assim, se não houver amor, tudo se torna vazio.
Sem amor, os dons espirituais se tornam apenas ruído. A manifestação espiritual perde seu propósito e deixa de edificar.
O amor, portanto, não é um complemento da espiritualidade cristã. Ele é o critério que dá sentido a todas as outras expressões da fé.
O exemplo de Jesus
A vida de Jesus revela como poder e amor devem caminhar juntos. Um dos episódios mais marcantes acontece em João 4, no encontro com a mulher samaritana.
Ali, Jesus demonstra um conhecimento sobrenatural sobre a vida daquela mulher. Ele revela detalhes do seu passado que não poderia saber naturalmente. Trata-se de uma manifestação clara do poder de Deus.
Contudo, o poder não foi usado para expor ou humilhar. Foi usado para restaurar.
Em vez de condená-la, Jesus conduz aquela mulher à revelação do Messias. O resultado é que ela se torna uma mensageira da boa notícia em sua cidade, e muitos passam a crer.
Esse episódio ilustra perfeitamente o ponto central do ensino de Israel Subirá: o poder de Deus deve sempre ser acompanhado de amor.
Quando o poder perde o rumo
Nem sempre os discípulos compreenderam esse princípio. Em Lucas 9, Tiago e João sugerem que Jesus faça descer fogo do céu para destruir uma aldeia samaritana que não os recebeu.
A reação de Jesus foi imediata: ele os repreendeu.
A lógica do Reino é diferente da lógica humana. O poder que Jesus concede não foi dado para destruir pessoas, mas para salvá-las. O próprio Cristo afirma:
“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (Jo 3.17)
Quando o poder é usado sem amor, ele se transforma em instrumento de controle, orgulho ou destruição. Quando é guiado pelo amor, ele se torna ferramenta de restauração.
A marca dos discípulos
Jesus deixou claro qual seria a marca que identificaria seus seguidores:
“Seu amor uns pelos outros provará ao mundo que são meus discípulos.” (Jo 13.35)
Note que ele não disse que o mundo reconheceria os discípulos apenas pelos milagres ou pela eloquência da pregação. A evidência mais clara seria o amor.
Infelizmente, muitas vezes a imagem do cristianismo no mundo tem sido associada a disputas, condenações e hostilidade. Isso revela o quanto precisamos retornar ao padrão estabelecido por Cristo.
O discípulo de Jesus é chamado a amar inclusive aqueles que o ferem. O próprio Senhor ensinou:
“Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês.” (Mt 5.44)
Esse amor não depende da resposta do outro. Ele nasce da natureza de Deus.
A base desse chamado está no próprio caráter divino. A Escritura afirma:
“Deus é amor.” (1 Jo 4.8)
Isso significa que o amor não é apenas algo que Deus faz; é quem ele é.
Por isso, João escreve:
“Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1 Jo 4.19)
Antes de sermos capazes de amar, fomos alcançados pelo amor de Deus. Ainda quando éramos inimigos, Cristo morreu por nós e nos reconciliou com o Pai.
Esse fato transforma nossa relação com os outros. Quem recebeu tão grande misericórdia não pode se recusar a estendê-la.
Uma dívida de amor
O apóstolo Paulo chega a afirmar que existe apenas uma dívida permanente na vida do cristão:
“Não fiquem devendo nada a ninguém, exceto o amor de uns para com os outros.” (Rm 13.8)
Somos devedores de amor porque fomos imensamente amados.
Isso significa que não escolhemos quem merece nosso amor. Somos chamados a amar amigos, desconhecidos e até inimigos. Amar não é resposta à dignidade do outro, mas expressão da natureza de Deus em nós.
Ao concluir essa reflexão, Israel Subirá mostra que o amor deve ser o combustível que move toda a vida cristã. Foi o amor que levou Cristo à cruz e é o amor que sustenta aqueles que dedicam suas vidas ao serviço do Reino.
O apóstolo Paulo descreve esse dilema em Filipenses. Ele desejava estar com Cristo, mas permanecia na Terra por amor aos irmãos, para que eles crescessem na fé.
Esse é o coração do verdadeiro ministério: amor por Deus e amor pelas pessoas.
A importância do amor, portanto, não é apenas doutrinária. Ela define a forma como vivemos, servimos e utilizamos os dons que recebemos. Sem amor, até a espiritualidade mais impressionante perde o sentido. Com amor, até as ações mais simples se tornam expressão do Reino de Deus.