Em seu livro O Profeta Gentil, Israel Subirá trata do poder do Espírito Santo não como um acessório da vida cristã, mas como elemento essencial da missão da Igreja. Ao abordar o primeiro dos três aspectos da ação do Espírito, ele parte do termo grego dunamis, traduzido como “poder”, que carrega a ideia de força inerente, poder que reside em algo por virtude de sua própria natureza.
Trata-se do poder que procede do próprio Deus e é compartilhado com aqueles que ele envia.
Dunamis: o poder que procede de Cristo
O Evangelho de Lucas registra o momento em que Jesus afirma: “Alguém me tocou, porque de mim saiu poder” (Lc 8.46). A mulher que sofria de hemorragia havia doze anos não tocou apenas um manto; tocou na fonte do poder divino.
Pouco depois, ao enviar os doze, Jesus não lhes entregou apenas uma mensagem. Ele lhes deu poder e autoridade:
“Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças.” (Lc 9.1)
Israel Subirá enfatiza que o poder concedido aos discípulos não era simbólico. Eles receberam dunamis porque tinham uma missão concreta: pregar o Reino, expulsar demônios e curar enfermos. A proclamação do evangelho vinha acompanhada de intervenção sobrenatural.
O Reino de Deus não é anunciado apenas com palavras, mas manifestado com poder.
Poder e missão são inseparáveis
A Grande Comissão não foi acompanhada de uma promessa abstrata. Antes de enviar os discípulos, Jesus ordenou que aguardassem até serem revestidos de poder (Lc 24.49). O termo novamente utilizado por Lucas é dunamis, antecipando o derramamento do Espírito no dia de Pentecostes.
Em O Profeta Gentil, Israel Subirá enfatiza que viver o sobrenatural não é privilégio de poucos nem troféu espiritual. Se a missão de anunciar o Reino é universal, a necessidade de poder também é.
O livro de Atos confirma essa realidade. São 29 milagres registrados em 28 capítulos. Desde o derramamento do Espírito em Atos 2 até as curas, libertações e intervenções extraordinárias ao longo da expansão da Igreja, a narrativa é permeada pelo sobrenatural. A Igreja nasceu em dunamis e avançou em dunamis.
Não há como dissociar a pregação do evangelho da manifestação do poder de Deus.
O obstáculo: incredulidade
Se o poder foi concedido, por que há tanta dificuldade em caminhar no sobrenatural? Israel Subirá aponta para a raiz do problema: incredulidade.
A mente dividida aceita, em teoria, que Deus é todo-poderoso, mas hesita na prática. A dúvida se manifesta em perguntas internas: “E se nada acontecer? E se a pessoa não for curada?” Esse diálogo revela que a fé não está plenamente integrada à obediência.
A Escritura afirma que quem crê age. Quem crê no “Ide” vai. Quem crê que recebeu poder, ora por enfermos, confronta opressões espirituais e anuncia o Reino.
A fé bíblica não é mera concordância intelectual; é convicção em ação.
Atos como referência
É comum usar a igreja primitiva como modelo apenas em termos relacionais. De fato, havia comunhão profunda, partilha de bens e vida em comunidade. No entanto, reduzir Atos ao aspecto relacional é ignorar sua dimensão sobrenatural.
Atos registra curas (At 3.1–11), libertações (At 16.16–18), intervenções angelicais (At 5.17–21), manifestações do Espírito (At 2.1–13) e milagres extraordinários (At 19.11–12). A igreja primitiva vivia unida, mas também vivia poderosamente.
Em O Profeta Gentil, Israel Subirá argumenta que o problema não está no tamanho das igrejas contemporâneas, mas na qualidade do evangelho que é pregado e praticado. O Espírito Santo não se manifesta em função de números, mas em resposta à fé obediente.
Poder e responsabilidade
O poder não existe para exaltar quem o manifesta. Ele serve à missão. A finalidade das curas, libertações e sinais é conduzir pessoas a Cristo.
O apóstolo Paulo escreve que, quando há manifestação do Espírito, até o incrédulo é convencido e reconhece que Deus está no meio do seu povo (1 Co 14.24–25). O sobrenatural quebra resistências, expõe o coração e aponta para a realidade do Reino.
Entretanto, Israel Subirá ressalta um equilíbrio fundamental: poder sem amor perde seu propósito. A motivação da manifestação sobrenatural deve ser o amor de Deus pelos que sofrem.
A importância do poder para a Igreja hoje
A Igreja é chamada de embaixadora de Cristo (2 Co 5.20). Embaixadores representam oficialmente o Reino que os enviou. Se o Reino de Deus é marcado por libertação e restauração, seus representantes não podem ignorar a dimensão do poder.
Viver em dunamis não significa buscar experiências espetaculares, mas obedecer à missão confiando que o Senhor coopera e confirma sua Palavra, como registrado em Marcos 16.14–20.
A importância do poder reside exatamente aqui: ele não é um acréscimo opcional, mas parte constitutiva da identidade e da responsabilidade da Igreja. O evangelho que chegou até nós foi anunciado em poder. A missão continua a mesma.
A pergunta, portanto, não é se Deus concedeu poder, mas se estamos dispostos a crer de maneira íntegra e agir de acordo com aquilo em que afirmamos crer.