A vida com Deus não se sustenta apenas pelo que fazemos para ele. Há um lugar de onde tudo precisa nascer: a comunhão com o próprio Deus. Quando perdemos esse lugar, até aquilo que realizamos em nome do Senhor começa a nos desgastar mais do que deveria. Continuamos servindo, trabalhando, pregando, aconselhando, liderando, ajudando pessoas e cumprindo responsabilidades, mas, por dentro, a alma vai ficando seca.
A oração não é um acessório da vida cristã. Não é um detalhe da rotina espiritual, nem uma atividade que encaixamos quando sobra tempo. Ela é fonte. É no lugar de oração que somos renovados, corrigidos, fortalecidos e lembrados de que não vivemos da nossa própria força.
Quem se afasta da fonte até pode continuar se movendo por algum tempo, mas esse mover já não está alinhado com o propósito essencial. O corpo sente, a alma sente, o coração endurece, a alegria perde cor, a fé fica pesada, e aquilo que antes fluía com vida começa a ser carregado como obrigação.
O DESGASTE E O SERVIÇO
Não existe super-herói espiritual. Todos nós temos limites. Até quando estamos fazendo a obra de Deus, precisamos reconhecer que o desgaste faz parte e o descanso essencial. Ministrar, servir e cuidar de pessoas exige entrega, e a entrega constante sem renovação diante de Deus pode nos levar a um lugar perigoso de esgotamento.
A Bíblia mostra isso na vida de homens usados poderosamente por Deus. Elias viu fogo descer do céu, enfrentou os profetas de Baal e participou de um momento extraordinário de manifestação divina. Ainda assim, logo depois, fugiu, se escondeu e pediu para morrer. Sansão também experimentou uma manifestação poderosa do Espírito, venceu inimigos de forma sobrenatural, mas, depois da batalha, quase sucumbiu de sede.
A vitória espiritual não elimina a necessidade de refrigério. Vencer uma batalha não significa que estamos imunes ao desgaste dela. Muitas vezes, depois de grandes entregas, descobrimos a nossa própria limitação.
Por isso, não basta experimentar a unção que nos capacita a fazer algo para Deus. Também precisamos da unção interior que nos refrigera, sustenta e restaura por dentro.
A FONTE PARA QUEM CLAMA
Depois da grande batalha, Sansão clamou ao Senhor, e Deus abriu uma fonte para que ele bebesse e recobrasse o alento. Aquele lugar recebeu o nome de En-Hacoré, que significa “a fonte do que clama”. A fonte não foi aberta apenas porque Sansão tinha necessidade, mas porque ele clamou.
A necessidade, por si só, nem sempre nos leva à restauração. Há pessoas sedentas que continuam caladas. Há pessoas cansadas que continuam funcionando no automático. Há pessoas espiritualmente secas que seguem tentando compensar a ausência de vida interior com esforço, agenda e desempenho.
Mas a fonte se abre quando voltamos a clamar.
Jesus fez um convite: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7.37).
Em seguida, as Escrituras explicam que ele falava do Espírito que haveriam de receber os que cressem nele. A fonte que sacia a sede da alma é o próprio Espírito Santo fluindo no interior daqueles que se voltam para Cristo.
A oração é o caminho pelo qual voltamos a beber dessa fonte. Não porque a oração convença Deus a ser bom, mas porque ela nos reposiciona diante daquele que já é a nossa vida.
ORAR NÃO É PERDA DE TEMPO
Um dos maiores enganos da vida cristã é imaginar que a oração compete com a produtividade. O princípio bíblico aponta na direção oposta:
“Se o machado está embotado e ninguém o afia, é preciso redobrar a força; mas com sabedoria se obtém êxito.” Eclesiastes 10:10
A oração é esse lugar de afiar o machado. O tempo com Deus não reduz nossa capacidade de frutificar; ele a aprofunda. Quando negligenciamos a presença do Senhor para ganhar tempo, acabamos perdendo mais tempo depois, porque trabalhamos cansados, distraídos, ansiosos e sem direção.
Até o crescimento da obra pode se tornar uma ameaça à vida de oração. Em Atos 6, quando a igreja cresceu e surgiram necessidades administrativas importantes, os apóstolos não trataram a oração como algo secundário. Eles reconheceram que não poderiam abandonar a oração e o ministério da Palavra para resolver tudo por si mesmos. Era necessário organizar o serviço, levantar pessoas cheias do Espírito e preservar a fonte.
“Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Então os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: — Não é correto que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Por isso, irmãos, escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, para os encarregarmos desse serviço. Quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra.” Atos 6:1-4
Nada deve nos afastar da fonte. Nem o excesso de trabalho, crescimento do ministério, urgência das demandas ou a pressão de atender a todos. A obra de Deus nunca deveria nos afastar do Deus da obra.
VOLTAR AO PAI
O maior modelo de vida de oração é o próprio Jesus. Os Evangelhos mostram sua humanidade de forma clara: ele se cansou, teve fome, sentiu sede, dormiu e chorou. Mas também mostram, com impressionante frequência, que ele se retirava para orar.
Quando as multidões o procuravam, ele se afastava para lugares solitários e orava. Antes de momentos decisivos, ele orava. Depois de dias intensos de ministério, ele orava. De madrugada, enquanto ainda estava escuro, ele saía para um lugar deserto e permanecia diante do Pai.
Isso deve nos confrontar. Se Jesus, sendo o Filho de Deus, cultivava uma vida de oração, como podemos imaginar que conseguiremos viver sem ela? Se ele se retirava da multidão para estar com o Pai, por que nós usamos a multidão, a agenda e as demandas como desculpa para orar menos?
A oração não era um evento isolado na vida de Jesus. Era seu estilo de vida. E talvez tenha sido justamente esse exemplo, mais do que qualquer explicação teórica, que levou os discípulos a pedirem: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lucas 11.1). Eles viram nele uma comunhão que desejavam experimentar.
DO DEVER AO PRAZER
É verdade que nem sempre a oração começa como prazer. Muitas vezes, ela começa como disciplina. Há dias em que orar exige decisão, resistência e perseverança. Mas a vida de oração não precisa permanecer apenas no campo da obrigação. Deus deseja nos conduzir a uma comunhão marcada por alegria.
Isaías profetizou que o Senhor alegraria seus servos em sua Casa de Oração:
“também os levarei ao meu santo monte e lhes darei alegria na minha Casa de Oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada ‘Casa de Oração’ para todos os povos.””
Isaías 56:7
A oração não foi pensada para ser um peso, mas um lugar de refrigério. A oração restaura a alma, renova o espírito e nos faz desejar voltar ao secreto, não apenas porque precisamos, mas porque encontramos vida ali.
O salmista declarou: “Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz vemos a luz” (Salmo 36.9). Essa é a experiência de quem volta à fonte. A oração deixa de ser apenas uma prática religiosa e se torna encontro.
Muitas vezes, colocamos a oração no fim da lista. Primeiro resolvemos, trabalhamos, respondemos, produzimos, cuidamos, planejamos, corremos, e só depois, se sobrar tempo, oramos. Mas aquilo que fica para “se der” quase nunca acontece. No reino de Deus, a oração precisa voltar a ser ponto de partida.
Paulo escreveu a Timóteo: “Antes de tudo, peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças” (1 Timóteo 2.1). Antes de tudo. Antes da estratégia, da execução, resposta, agenda, antes da tentativa de carregar tudo nas próprias mãos.
Voltar à fonte é abandonar as cisternas rotas. É reconhecer que não fomos chamados para viver de reservas antigas, experiências passadas ou força humana acumulada. Precisamos beber todos os dias. Precisamos voltar ao lugar onde a alma é saciada, onde o Espírito nos renova, onde o coração reencontra o centro e onde a obra deixa de ser peso para voltar a ser fruto.
Deus não nos chama apenas para fazer mais. Ele nos chama para permanecer nele. E é dessa permanência que nasce tudo o que realmente tem vida.
Texto baseado no livro Até que nada mais importe, de Luciano Subirá. Adquira em loja.orvalho.com